Quinta-feira, Fevereiro 18, 2010

A Aventura da Tunoética

Esta "Aventura" já se encontrava na "calha" faz uns tempos largos, derivado de um pequeno "estudo" de campo entretanto realizado, por um lado, e a várias experiências conhecidas e relatadas, por outro. Tudo isto se justifica num plano mais elevado e que agora, em vésperas de mais um recomeço da época tunante parece ser uma excelente altura para tal.

Entendi chamar-lhe de Tunoética por força maior da co-relação quase de ADN entre o Tuno e uma certa Ética que a ele lhe é intrínseca por natureza e que até define aquele que se diz Tuno daquele que se veste apenas como tal por fora - e não por dentro. Por oposição, trata-se de matéria que nada diz aqueles a quem passa a mesma completamente ao lado.

Tunoética serve para enquadrar comportamentos, posturas, isto de uma forma geral, que moldam o carácter e forma de Ser, Estar de cada um de nós num meio social muito peculiar, sui generis e único por tradicional. É, por exemplo, Tunoético num certame de Tunas atribuir-se prémios de participação, que mais não são que um agradecimento feito por quem organizou à boa vontade, disponibilidade e participação dos seus convidados, engrandecendo assim o seu próprio evento por um lado e a imagem geral de todos, numa derradeira análise. Aliás, a noção competitivo-festivaleira em que caímos faz com que a Tunoética presente no prémio de participação se dilua completamente por oposição à premiação do mero talento musical, por exemplo, se repararmos com propriedade. Mais, não há prémio mais Tunoeticamente correcto do que o de participação; em tempos foi o de Tuna mais Tuna (até lhe atribuirem outro significado...) e hoje até há certames que se "esquecem" pura e simplesmente de lembrar os seus convidados com o tal dito cujo prémio de participação. É este quase tão desprezado quanto Tunoeticamente importante.

Tome-se um exemplo onde a Tunoética se revela com maior destaque e importância, quer pela sua presença, quer pela sua ausência: os certames. Ora, sendo estes momentos de completa interacção entre vários agentes tunantes, a sua importância assume contornos permanentes ao longo de todos os actos do evento, sendo estes quais sejam, sem dúvida. Sendo certo que - e por força de um ambiente exageradamente competitivo que torna mais viva a presença ou ausência dessa tal Tunoética - o certame, pela sua natureza até, deve manter niveis Tunoeticamente equilibrados, procurando valorizar o que realmente tem valor tunante e desvalorizar certos aspectos que podem toldar as mentes mais incautas. Tratando-se antes de mais de um evento tunante, é tunoético salvaguardar aquilo que é de Tuna e não aquilo que não o é de todo. Evidente que muito mais nestas matérias haverá a dizer; entre os exageros de uma teoria da conspiração e um laissez faire tão em moda existe um sem número de situações que obviamente engrossam a babilónia de coisas que podem ser vistas de vários prismas tunoeticamente falando.

Ainda recentemente recusei - como já o fiz algumas vezes, note-se - compôr um Jurado por manifesta ética tunante e sei não ser o único, felizmente, a declinar situações onde claramente se pode, sem necessidade alguma, colocar em causa algo mesmo que ciente da minha imparcialidade. Mas não basta ser, há que parecer. Se queremos melhorar, progredir, todos, cada um na sua esfera de acção, em prol do todo, temos de vez em quando de ser conscientes de que se pode, facilmente, deixar no ar alguma coisa que mesmo não correspondendo de todo à verdade pode parecer, pelo menos, nada ter a ver com essa mesma verdade mesmo que visto aos olhos de outros, mesmo que cientes da nossa verticalidade. Bem sabemos que para uns a garrafa está meia-cheia e para outros a mesma meia-vazia está. Até por isso mesmo é fulcral ter-se essa tal noção de tunoética. Vêm aí muitos certames e seria importante que os seus organizadores não cometessem pecados capitais nestas matérias. Como seria importante que os seus convidados tivessem em mente essa mesma tunoética, sem dúvida alguma. O que por vezes se vê é muita exigência a terceiros e nenhuma cautela para com os mesmos.

Sendo prático: Não é Tunoético fazer de conta que não há critérios de avaliação, não é tunoético ter-se num jurado pessoas néscias e estranhas no metier, não é tunoético faltar-se aos actos de um evento e só aparecer em palco e pouco mais, não é tunoético transforma-se um festival de tunas num qualquer circo, não é tunoético achar-se que "isto-é-uma-grande-festa-e-que-se-lixe-o-resto", não é tunoético fazer uma coisa quando nos propomos de véspera fazer outra.

Em sentido oposto, é tunoético convidar-se Tunas para festivais...de Tunas (pasme-se a redondância...) , é tunoético desclassificar se for caso, é tunoético não atribuir prémios, é tunoético ser-se e parecer-se sério, é tunoético uma participação linear das tunas convidadas, é tunoético que se seja e se pareça ser o que se diz ser. Depois, entre o "diz-que-disse", as rivalidades de ocasião e os factos concretos é que sobra alguma coisa de positivo nos eventos que vamos realizando e neles participando. E o que sobra é que vai determinar o grau de respeitabilidade, tunoeticamente falando, do que somos e fazemos, para o futuro. Por estas e por outras é que há, p.ex., para aí muita "tenda armada" travestida de certame de tunas e distintos eventos tunantes de reconhecido mérito e valor e logo, tunoeticamente validados por todos.

A Tunoética deve ser transversal a tudo o que fazemos e somos de facto. Tirando maus entendidos, conversas de treta e afins, volta e meia percebe-se claramente que há quem por aqui ande sem o mínimo de tunoética. Como não dou para peditórios de indigentes escuso-me a falar em casos concretos de manifesta falta de tunoética. Prefiro profilaticamente abordar a noção geral que cabe a qualquer Tuno digno desse epiteto e que se esforça, pelo menos, em ser tunoeticamente competente.

Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

A Aventura do "Mito Popular"....

Derivando da última "Aventura":


Uma das mais erradas concepções existentes no mundo tunante nacional, ainda hoje – erro que urge clarificar definitivamente – prende-se com a suposta obrigatoriedade em se tocar temas populares portugueses, um dogma ainda maior do que o da Imaculada Conceição ou mesmo do que o Dogma da Infalibilidade Papal. Criou-se o preconceito – completa e objectivamente errado – de que tuna que é tuna tem de tocar musica popular portuguesa obrigatoriamente, forçosamente, exclusivamente. Caso oposto, não é tuna. Errado, aliás, nada de mais errado se pode afirmar sobre esta matéria em concreto.

Confunde-se, e para adensar mais o equívoco, na mesma temática duas noções distintas, que são o só se toca e o também se toca música popular portuguesa em tunas, sendo que a 1ª é um disparate monumental e a segunda é uma opção estética, apenas e tão somente, de cada grupo. No caso português em concreto, tendo sido a Tuna resgatada pelo meio universitário ao meio rural também, este erro assume com mais ênfase contornos de escândalo, por duas ordens de razão: O estudante universitário tem obrigação de investigar, saber, ler, comprovar, pois essa é a sua profissão e, em 2º lugar, porque a tuna popular e de âmbito rural – partindo do pressuposto que quem defende essa tese “baseou-se” no precedente existente, ou seja, a tuna rural – não tinha nos seus reportórios apenas, exclusiva e dogmaticamente, música popular. Errado, completamente errado.

E se nem as tunas populares tocavam só temas populares, onde sustentar historicamente tamanha atoarda como sendo “tuna que é tuna só pode tocar música popular portuguesa”? Se se baseou apenas nos grupos de música popular portuguesa e/ou ranchos folclóricos então trata-se de erro de casting chamar-se tuna universitária a algo que de tuna universitária nada tem. O que talvez explique muita coisa, note-se, por um lado, sendo que mais absurdo se torna a sustentação da tese “tuna que é tuna só toca musica popular portuguesa” por manifesta vontade em se querer ser mais papista que o Papa.

José Alberto Sardinha, na sua obra “Tunas do Marão” – portanto, obra que trata a tuna popular, no caso, as maronesas – diz a dado passo e reportando-se como exemplo à Tuna de Pomarelhos (Vila Real) e por volta do ano de 1930 “O seu reportório compunha-se de valsas, marchas, polcas, mazurcas, e, mais tarde, corridinhos e tangos. Tinham acesso a partituras, que lhes eram fornecidas pelo Manuel Fonseca ou “Manuel do Pote”, mestre da Banda da Cumieira. Quem as lia era o seu irmão Manuel, que sabia música muito bem e que ensinava depois os restantes membros da tuna. Este Manuel Jorge, por ser um bom músico, chegou a ensaiar tunas aqui em redor, como a de Tuizendes, na freguesia de Torgueda, e a da Granja, freguesia de Parada de Cunhos.” (fim de citação).

Ora, várias conclusões saltam à evidência: Ou das duas uma, a Valsa, a Polca, a Mazurca e o Tango são estilos musicais tipicamente portugueses, quiçá maroneses e por isso afinal não nasceram – e respectivamente – na Alemanha, Boémia, Polónia e no Rio da Prata ou então algo está profundamente errado e alguém ajudou no erro, propagando e propagandeando o mesmo – o que é ainda mais grave. Note-se que o texto – este e muitos outros sobre a matéria, deve-se referir – diz a dado passo que tinham acessos a partituras, sendo que os que sabiam música ensinavam os restantes elementos da tuna. E quando não sabiam ler partituras tocavam “de ouvido” inclusivamente peças clássicas de autores famosos como Mozart p.ex. Ou seja, não era por ser uma tuna popular ou rural que não se detinha a capacidade técnica em ler partituras, por exemplo, para a transmissão dos temas. E não era por ser uma tuna rural que não se podia tocar temas clássicos, polcas, mazurcas e tangos, que os tocavam, fazendo parte dos seus vários reportórios. Tocavam temas populares? Naturalmente. Também e não só, como acima está provado.

Ou seja, a tuna popular e/ou rural nem sequer pode servir de estereótipo a quem, nesciamente procura defender o indefensável. "Mitologicamente" nascido no “boom” tunante dos anos 80 e 90 do Século XX, é imperioso que se afirme sustentadamente que não há uma única razão para que uma tuna universitária portuguesa toque exclusivamente temas populares portugueses.

Mais adianta José Alberto Sardinha, de forma cabal: “Mas o que mais alegria lhes dava era tocarem nos bailes da aldeia, aos domingos (excepto na Quaresma) e nas “esfolhadas”, em Setembro e Outubro. Tocavam valsas, viras, marchas, polcas e mazurcas, bem como o “dobrado” (“chamávamos-lhe assim, mas é um pasodoble, que tem o mesmo andamento que a polca, em dois por quatro”). Perguntado, respondeu que não tocavam a chula nem a tirana.” (página 249).

Ora, constata-se que em determinadas circunstâncias e contextos, nem sequer música popular portuguesa tocavam as tunas populares e/ou rurais.....

Cito finalmente José Alberto Sardinha numa conclusão que desmonta completamente este mito (mal) criado no mundo tunante universitário nacional (e porventura fruto de uma certa postura de idos do "boom" que se quis "cosmopolizar" à força com o advento da Praxe e das Tradições Académicas...):

A música tradicional está em permanente mutação. Não existe tal coisa como a música popular genuína, intemporal, conservada intacta desde há séculos, como se estivesse isolada da sociedade e das transformações de hábitos e costumes que se vão operando ao longo dos tempos. Bem ao contrário, a música tradicional é um género dos mais mutáveis, recebendo e adoptando constantemente novas contribuições exteriores, as quais, depois de assimiladas e testadas pelo tempo (no sentido de permanecerem, por fazerem sentido, funcionalmente falando, para a
vida das comunidades em questão), passam também elas a fazer parte do corpo musical
tradicional. Trata-se, pois, de um género musical permanentemente contaminado,
receptivo a influências e transformações provindas de outras camadas sociais, de
outras terras, de novos tempos com novos hábitos. O reportório musical das tunas
é um bom exemplo desse tipo de contribuição. Quantas modas populares tradicionais
são, na verdade, adaptações, por vezes simples cópias, de marchas e valsas? E de contradanças, polcas e mazurcas? O que é o corridinho, senão uma chotiça, que
por sua vez é uma polca mais lenta criada em meados do séc.XIX na Europa Central
e vinda até nós através do teatro musical e de agrupamentos musicais aparentados,
ou do género, das tunas? E o que é a moda de dois passos (nalguns sítios conhecida
por valsa de dois passos) senão uma mazurca
?( fim de citação).


As tunas populares, como grupos organizados, nasceram em meados do Século XIX, na segunda metade do mesmo mais propriamente, ou seja, antes das tunas estritamente e exclusivamente universitárias de finais, apenas, do mesmo século. Naturalmente esta ultima “bebeu” das outras influências, processos de transmissão de conhecimentos, etc. Mais, quando as – duas – tunas universitárias existentes se debatiam com períodos de maior ou menor folgor ao longo de todo o Século XX, ao longo do mesmo período viveram-se por todo o país bem como ilhas uma autêntica paixão e fulgor pelos agrupamentos instrumentais de cordas, tanto nas vilas e cidades, como nas mais recônditas aldeias. Quase não haveria uma freguesia do país onde não tivesse existido uma tuna.

Definitiva e comprovadamente: não há qualquer razão historicamente sustentável que comprove a exclusividade da música popular portuguesa na tuna universitária nacional. Nenhuma razão. Não cabe à Tuna universitária esse ónus e, por tal, não é mais ou menos tuna aquela que toque ou deixe de tocar exclusivamente temas populares portugueses, populares espanhóis ou outros.

Conclui-se: é anti-cultura tunante afirmar que “tuna que é tuna só toca música popular portuguesa”; isso sim, não é de Tuna com T grande, é antes uma “calinada” monumental que serviu alguns propósitos estéticos em idos do “boom” e que se revelaram feridos de qualquer sustentabilidade prática ou teórica.