Está ainda por estudar, de forma aprofundada, o impacto que o grupo Canário Los Sabandeños teve no universo tuneril, e desde logo, no português.
Logo, a presente "Aventura" tem sempre tal condicionante, a somar à 1ª vez que o tema em específico é abordado de forma directa - aqui, seguramente, sendo que não conheço qualquer abordagem ao tema noutros fóruns.
Antes de mais, há que dizer que a influência surge de forma indirecta, numa 1ª fase, e por via da tuna espanhola desde logo, que, em idos de finais dos anos 80, inícios dos de 90, foi alvo de um surto de sudamericanitis agudo nos seus repertórios, precisamente - e também - por força das versões que Los Sabandeños legaram, a cada passo. Quem conhece a fundo a discografia de tão afamado grupo Canário percebe, precisamente, essa sobreposição em camada - que origina e explica tal.
Os 3 volumes do "Cantan a Hispanoamérica" (1971, 1973 e 1974) são ilustrativos, mas os trabalhos "Cadena de Isas" (1984), "Homenage Canarias y Venezuela" (1986), "En Concierto" (1988) e "Americanarias" (1989) são fulcrais - e estes últimos 2 álbuns assumem particular relevância. A partir de 1990, a musicalidade do grupo inflete para o Bolero, com os álbuns "A la luz de la luna" (1994), "Íntimamente" (1991) e "y Amor y Carnaval" (1992), culminando com o icónico albúm "Bolero" (1995) - já mais conhecido no seio tuneril do Porto. Os álbuns de 1996 "30 años Cantándole al mundo" e "Mar" serão, porventura, os mais difundidos por cá. De referir nesta fase os arranjos estratosféricos de Hector Gonzalez, seu diretor musical à época.
São, basicamente, destes trabalhos, que surgem umas poucas versões, mais ou menos fielmente decalcadas , por parte de 4 tunas portuenses, então, e pelo menos: A TUP, a Tuna Feminina do OUP, a Tuna Académica da Universidade Lusíada do Porto e a Oportuna. Se na TUP são conhecidas urbi & orbi a "Madalena", "A Don Rosa Toledo" ou ainda "Alfonsina y el Mar" (todas elas com versões também em tunas espanholas), menos conhecida mas igualmente superior será a versão de "Barco Quieto", do álbum "Mar". A Tuna Feminina do OUP deleitou-nos com uma versão de "Maria Vá" em português, a Oportuna com o seu então famoso "Símon Bolívar" e a TAULP com "Viajera" - e até onde a memória me permite, admitindo mais temas noutras tunas portuenses, dado, então, ser o grupo canário amplamente desconhecido fora da Invicta. Penso que "El Cuarto de Tula" foi tocado por outras tunas.
Depois, as Tunas espanholas que cá vinham, em certame, a legarem mais temas amplamente conhecidos, como "La Muralla" ou "Las dos Puntas" (quem se lembra da Tuna Universitária de Santander com este tema?), ou CD´s de tunas espanholas com vários temas do grupo canário (O famoso CD de Tunas de Sevilha com Peritos a tocar "Alma llanera", p.ex.) entre outros temas que, não sendo originais dos Los Sabandeños, foi graças a este grupo que a polinização de repertórios ocorreu, quer de tunas em Espanha, quer depois por cá mesmo que em menor escala. Depois, Los Gofiones a deixarem lastro, Los Parrandboleros (com berço tuneril), Atlantes e por aí fora. Mas tudo começa com Los Sabandeños e, por cá, com a TUP a reproduzir, superiormente, vários hinos que este grupo Canário, por sua, vez, elevou à condição de obra prima.
Admito que residual, então e mesmo hoje, mas não pode ser escamoteada, de igual forma, a influência deste grupo Canário na tuna portuense, mais em concreto. Na musicalidade, nos arranjos, no cuidado na execução, na vocalidade, e que serviu para moldar, então, um estilo que, temo hoje, estar algo adormecido. É pena. Por uma década acompanhei o grupo em vários concertos em Espanha e por cá, também. Tenho quase 40 álbuns da sua discografia na minha colecção particular e, durante muito tempo, "bebi" e "comi" Los Sabandeños, sem me importar sequer com o som que as tunas produziam, por entender ser este o melhor exemplo, o zénite da interpretação vocal e instrumental em grupos de cordofones.
Privei pessoalmente com eles algumas vezes, toquei e cantei - melhor dito, tentei cantar e tocar - com alguns deles à mesa de uma tasca em Cedeira. São um encanto de pessoas, longe do vedetismo aparolado. Um exemplo em toda a linha.
Ouvir Los Sabandeños durante muito tempo é, em si mesmo, um doutoramento em musicalidade típica de grupos pletro-vocais. Demora a perceber-se os detalhes, aquela nota, aquele acorde, aquele arranjo. E o porquê de. E demora ainda mais tempo a entender porque são a etapa superior na interpretação plectro vocal. Tudo aquilo parece fácil quando, na verdade, é para a esmagadora maioria das tunas, inatingível. O álbum "Gardel" é disso um excelente exemplo - entre outros menos conhecidos, como "3 Reyes Magos", masterpiece ainda por descobrir.
Acabo como comecei.
Ainda está por explicar a verdadeira influência do grupo canário Los Sabandeños, de forma mais aprofundada. O que sei é que, tomado como referência, adjudica logo à cabeça musicalidade acima da média, se bem "lido" e igualmente "interpretado" - missão complicadíssima. Logo, diferenciador. Não vejo mais nenhum grupo estrangeiro, em específico, com este nível de adenda qualitativa naquilo que foi o som das tunas, aqui ao lado e também cá.

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