A Aventura da [dita] Musica Popular

Não sou eu o que o digo, de seguida. Leiam esta peça constante neste site - da responsabilidade do Rancho Folclórico da Rinchoa-Sintra - e retirem as vossas conclusões.....

" A partir mais ou menos do século XIX surgiram, entre nós, músicas e danças provenientes do exterior que o povo por sua vez adaptou às suas tradições populares tendo contribuído, em grande parte, para a sua divulgação: as Filarmónicas, os cavalinhos, os tocadores de bailes, os sol-e-dós e as tunas que no meu entender, foram os mais importantes difusores dessas espécies citadinas, pela preponderância que tiveram na animação das festas, dos bailes, dos concertos nos coretos das aldeias, das vilas ou das cidades onde essas novas espécies musicais eram interpretadas.

Dessa incidência resultou o aparecimento de novas formas de danças e de melodias mercê das influências com que o povo, naturalmente, as impregnou. A mensagem musical difundida por esses agentes culturais, deu, pois origem a que o povo das nossas aldeias se apropriassem de outras melodias e de outras danças: das valsas, das polcas, das mazurcas, das xotiças etc., que o povo naturalmente recebeu, adaptou, deu uso e após o processo aculturativo passaram a ser também partículas das suas características culturais, da sua per­sonalidade e, com o decorrer dos tempos, penetraram nos costumes da comunidade que as recebeu, passando a fazer parte do seu património lúdico.

Os antropólogos e os etnólogos, acordaram há poucos anos num princípio que diz que tudo aquilo que um povo recebe de outro povo, assimila à sua maneira de ser e mantém pelo menos cem anos, passa a ser próprio desse povo, embora a sua origem não esteja nele.

Ora tendo em conta esse princípio, não pode­remos deixar de considerar como músicas e danças populares alguns viras, a moda a dois passos o passo de quatro, o passo largo, e outras danças só porque as suas estruturas músico-coreográficas tiveram as suas origens respectivamente nas valsas, nas mazurcas e nas polcas, que vieram do estrangeiro.

De uma maneira geral, os hábitos sociais e os modos de vida da aristocracia e da burguesia, pelo menos os da alta e média burguesia, são internacionais.

A burguesia e aristocracia portuguesa do final da idade média e dos séculos XVI a XIX dançaram, como no resto da Europa, ao som das músicas suas contemporâneas.

Já a partir dos anos quinhentos se verificaram frequentes casos de danças cortesãs que passaram ao povo que, por sua vez as adaptou à sua mentalidade: a exemplo da pavana, da galharda, da giga, do minuete etc. Mas ao longo do século XIX, tal fenómeno tornou-se ainda mais frequente: as transformações sociais e sociológicas consequentes do liberalismo, e o próprio progresso técnico que caracterizaram o século XIX, tiveram uma profunda repercussão em determinados aspectos dos usos e costumes do povo.

É de certo modo um momento, senão de viragem, pelo menos de grandes alterações nos costumes populares portugueses, alterações essas que se repercutiram não só no vestuário, como na música, nas danças etc. Grande número de cantigas e de danças burguesas, foram então importadas e assimiladas pela nossa gente à sua maneira.

Entendem alguns, aos quais modestamente me associo, que não se pode rever apenas como espelho ou reflexo da elevação social do povo, a arte erudita.

A sabedoria popular não deve merecer menor atenção. São tão importantes uma como a outra.

Os seus testemunhos são corolários vitais de cada povo e as cantigas, as danças, as músicas são documentos colectivos que fazem parte das terras das regiões e dos países.

Sabe-se que no século passado, nomeadamente nas cidades, nas vilas e aldeias e nos meios mais desenvolvidos onde as danças populares deixaram de ser entretenimentos das populações, sendo o seu lugar ocupado pela dança e música citadinas nos salões de baile da burguesia. Porém, as danças de salão, das quais ainda hoje se encontram raízes no nosso folclore, já muito pouco tem de comum nos aspectos coreográfico, melódico, e rítmico com as que foram utilizadas de inicio pela burguesia. Há radicais transformações nesses exemplares, tendo em conta as espécies originais, de proveniência citadina que serviram de modelo ao povo humilde das nossas povoações. É que essa gente simples das aldeias, ao ouvir tocar e ver dançar essas espécies vindas do exterior – a que, aliás deu os mais variados nomes a seu belo prazer – usou-as e adaptou-as ao seu génio particular, dando-lhe o cariz popular... e o tempo fez o resto."


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