A Aventura da Refundação da Praxe



Preâmbulo: Não é matéria directamente a ver com este espaço. Dadas as circunstâncias actuais, abro uma excepção.




Costuma-se dizer nos meios aeronáuticos que um acidente de aviação é resultado de um conjunto de pequenos incidentes que, coincidindo ou cruzando-se num mesmo cenário, terminam na inevitável tragédia que é sempre uma queda de avião.


O que se passou no Meco mais não foi que uma inevitabilidade, o desfecho final de um conjunto de incidentes que foram ocorrendo ao longo das ultimas 3 décadas: A Praxe foi tomada de assalto por pessoas que dela fizeram uma sub-cultura, um negócio - alguns deles de duvidosa legalidade - uma sociedade secreta dentro da sociedade, uma seita levada ao ultimo extremo da insanidade e da loucura gratuita, numa lógica que em nada se distancia, p.ex., do que se passou em Waco com os seguidores de David Koresh em 1993. Sabemos como tal loucura terminou.


São hoje os ditos organismos da Praxe - grupos ilegais e sem personalidade jurídica, que a evitam inclusive na lógica do secretismo que as sustenta para, assim, levarem a cabo as suas pretensões - os principais e únicos culpados da tragédia em que se transformou uma cultura secular estudantil chamada de Praxe, usurpada que foi por essas estruturas clandestinas e ilegais que, de forma sucedânea, se vão replicando e reproduzindo em razão de curso, faculdade, universidade e Academia, um pouco por todo o país, numa lógica de sucursais de praxe onde a verdadeira razão da sua existência ultrapassa, faz tempo, a razoabilidade do que está de fora. A ponta do Icebergue esconde o mesmo sob a água. Desta vez o Meco mostrou que existe muito mais para se saber.


Sejamos pois, claros: Era uma questão de tempo. E sejamos ainda mais claros: Os sinais estavam todos aí, à mostra, para quem os quisesse ver e soubesse interpretar. Eu, neste blogue, várias vezes alertei - de forma indirecta e reportado-me ao tema do mesmo blogue, a Tuna estudantil - para os perigos, exageros, arrogâncias, sub-culturas, factos e casos de policia que foram ocorrendo nos últimos tempos neste país. Não foi por acaso que sempre insisti no separar, no apartar das águas. Os sintomas eram claros. Estavam à vista. Não careciam na sua interpretação de - mais - uma tragédia.


Foi no Meco. E ao contrário do que alguns - tentando ainda salvar o que não pode ser salvo dadas as graves circunstâncias - que tentam provar o contrário, foi no Meco mas poderia ser em Miramar ou em Buarcos ou noutro qualquer local. Não carece de grandes teorias de desculpabilização ou de auto-polimento de egos praxistas. O que aconteceu poderia muito bem ter acontecido em qualquer lugar deste país. Já se fecharam ruas às 3 da manhã como se vivêssemos em Damasco ou em Kiev por estes dias. E não foi em Lisboa. Já se arrebanhou milhares de caloiros para se ir depôr um Dux à pedrada para dentro de muros de uma instituição de ensino Superior. E não foi em Lisboa. Já há histórico. Há um perfil claro. Era ler o mesmo e cruzar com os avisos que foram feitos por quem quer a Praxe Verdadeira de volta. Tudo somado, os tais incidentes que se vão cruzando no tempo e no espaço, terminaram na inevitável tragédia.


Criou-se uma Cosa Praxis Nostra. Foi criada a nível nacional e depois ramificou-se. As fotocopias foram sendo em alguns casos mais "fieis" que o original e no que de pior tudo isto encerra. Fichas de personalidade são coisa de regimes ditatoriais, de sociedade secretas, de seitas, de Waco. Caíamos na realidade. Nada disto é defensável e lastimo que haja UM único ser pensante que tente defender o indefensável. A alienação mental que leva gente dita de adulta a entender que o perigo de vida é passível de ser Praxado por um Dux, mostra claramente o ponto de degradação a que se chegou.


O pano caiu, como alguém muito bem escreveu. À custa de 6 mortes. Sejamos CLAROS. Basta. Isto tem de parar. A brincadeira de preto com alienação mental dos seus intervenientes pelos seus não menos doentes pseudo-líderes tem de acabar. De uma forma ou de outra. Caiam os interesses económicos que caírem - porque os há, bem grandes, no meio desta alienação.


No imediato, urge o seguinte:


Todas as Comissões e Conselhos ditos de Praxe devem ser compulsivamente legalizadas - ou extintas caso não queiram - num processo em tudo idêntico ao realizado com as claques de futebol. Permanecendo dúvidas sobre a sua legalidade, então não cabe outra solução que não recaírem na esfera jurídico/legal para assim ficar CLARO quem é quem, quem representa o quê e como, bem como ficam as mesmas assim no campo da abertura, claridade processual e de responsabilização civil e criminal. Não se entende que tais Comissões e Conselhos, tratando do que tratam, lidando como e com o que lidam, influenciando como influenciam, gerindo dinheiros como gerem, se escondam numa ilegalidade subterrânea onde ninguém responde por rigorosamente nada: Até nisso este caso do Meco é paradigmático. Não podem continuar as estruturas ditas da Praxe a fazer de conta que vivem num planeta que não este, a Terra.


Devem todos os ditos Conselhos de Veteranos retratarem-se publicamente perante a situação actual -e não continuando calados, de forma cúmplice - seja por via de uma posição colectiva ou mesmo de cada um desses ditos organismos, declarando desde já estarem dispostos a mudar de filosofia quanto à forma de encarar a Praxe enquanto cultura, colocando-se todos e de imediato à disposição nos seus ditos cargos - Dux´s, Veteranos, etc - e promovendo um debate sério nas suas instituições para a escolha de novas estruturas com personalidade jurídica: Basta de gente que tornou isto numa profissão ou expediente para ganhar a vida. Deve-se devolver ao Estudante o que é dele.


Deve o Conselho de Reitores tomar as medidas absolutamente necessárias para que seja restabelecida uma Praxe saudável, branca, integradora, solidária e fraternal, terminando liminarmente e com recurso se for caso, às autoridades, de toda e qualquer manifestação desta pseudo-Praxe negra, tratando internamente os seus lideres com pesada mão disciplinar e até mesmo apresentando queixa contra os mesmos - enquanto tais pseudo-organismos não saírem da clandestinidade a que se auto-votarem voluntária e interessadamente.


Ainda bem que a seu tempo as Tunas Estudantis de demarcaram - ver Manifestvm Tvnae, de 2011 e recentemente ratificado em sede de Encontro Nacional de Tunos. Não foi por falta de aviso.


A Cosa Praxe Nostra morreu naquela fatídica noite, no Meco. Façamos com que a página se volte, respeitando a memoria de todos os que pereceram nessa noite. Caso oposto, a Praxe desaparece. E por favor, não se defenda o indefensável: Fazê-lo é alinhar com o que se tem vindo a passar. Saíamos deste imenso Waco em que se mergulhou a Praxe.

Refunda-se a Praxe. Basta disto.




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