A Aventura do Certame (II)



Não vou discorrer sobre a história do conceito de certame de tunas estudantis, já amplamente efectuado aqui e em vários locais internauticos.

Detenhamo-nos sobre a sua função social intra e extra tunas estudantis.





O Festival tornou-se, com o evoluir dos tempos, numa espécie de cartão de visita da tuna que legitimamente o organiza e é essa a sua função social na base, na génese, uma forma de receber em casa as congéneres numa demonstração quer de agradecimento, quer de pujança interna associativa, sem prejuízo do corriqueiro cliché que se resume à "promoção da cultura tuneril estudantil nacional e internacional", quase que uma fatalidade constante em Regulamento da esmagadora maioria destes eventos. Até aqui, a base social é esta, confinada sempre ao tempo e espaço em causa. Foi o tempo dos certames ditos grandes onde verdadeiras fortunas, então em tempos de «vacas gordas», foram usadas pelos seus promotores para também de forma indirecta promover a imagem das suas universidades e faculdades. Anos 90.

Depois tomou-se o Festival como uma evolução geopolítica da própria postura, forma de estar, posicionamento, da organizadora quer face às suas congéneres convidadas, quer face às restantes, num xadrez sempre complexo e que foi ele mesmo evoluindo à imagem e semelhança dos propósitos e objectivos quer da organizadora, quer das convidadas. O que em tempos se convencionou apelidar de carrossel e que veio a definir estratégias e posicionamentos claros, que nos mostra ainda hoje uma dada filosofia, caso a caso, enquadrado que fica assim cada evento, provocando um replicar de participações em alguns certames mais conhecidos que nos mostram precisamente o atrás descrito: Se por um lado é perfeitamente perceptível e compreensível tal postura, por outro a constante repetição ano após ano de elencos é obviamente saturante e resultado que é precisamente dessa - falta propositada de - escolha. Não parece verosímil indicar a crise financeira do inicio deste Século como causa para tal replicar - pois o custo, em certame, de um tuna estrangeira é igual ao custo de uma tuna portuguesa de outra cidade, p.ex.

O que levou à clara e óbvia segmentação de mercado, mais que evidente e em alguns casos, completamente assumida por parte dos promotores vários de alguns certames. Repete-se novamente que não está em causa a legitimidade de quem convida e recebe - em nossa casa mandamos nós - mas tal constatação não invalida em parte alguma as restantes conclusões a retirarem-se por força da mesma. Alguns eventos foram-se cristalizando nessa filosofia, gerando com tal sinergias muito próprias que obviamente, implicam ganhos e custos, sendo que o maior deles se reporta à tal percepção por parte do público da noção de replay anual de elencos - e poder-se-ia discutir aqui a validade dessa mesma escolha.


Num outro oposto assiste-se a uma outra lógica que quase excepciona a de cima referida - todas as regras têm a sua excepção - que é a procura, de outros tantos certames, de tunas que não realizam festivais mas cuja qualidade artística é inegável, tornado-as atractivas aos convites de organizações já instaladas no tempo e espaço. Há alguns casos que atestam esta filosofia e que, indubitavelmente, comprovam a validade dessas mesmas tunas desde logo pois não têm  - e na presunção da lógica de carrossel -  evento para poderem, assim, entrar num suposto circuito existente. Ora, tal constatação comprova a validade da essência do certame, que será procurar as mais capazes artisticamente com o objectivo de potenciar e credibilizar o próprio evento, numa lógica que potencia o próprio certame em si face ao público, que quer diversidade e qualidade - e não numa lógica fechada que se basta a táctica face ao futuro da organizadora, tão legitima quão reveladora de propósitos, à qual o público do certame em causa é completamente alheia e nem sequer conhece tais motivações - que fará entendê-las ou interpreta-las.


Como alguém disse um dia, "atrás de uma grande tuna está um grande certame" (citei alguém). E efectivamente assim foi, em tempos idos, onde o evento subsidiava directamente a prossecução da regular actividade de cada tuna que promovia o seu festival. Actualmente encontramos um cenário algo diferente, onde obviamente ainda subsiste muita da lógica dos anos 90 mas onde encontramos, de há algum tempo a esta parte, outras lógicas que rompem com a atrás mencionada. Se atentarmos p.ex. ao caso do Porto temos hoje muitos menos certames ditos de referência face aos clássicos dos anos 90, sendo que alguns desapareceram com carácter regular - apenas pontualmente se realizam - ou então se descapitalizaram sobremaneira, saindo das grandes salas de referência e partindo para soluções low cost na sua organização - com claras consequências para a imagem das mesmas - sendo que em alguns casos roçam até a mera existência pontual se comparados com outros tempos onde foram referência nacional até. Por outro lado, começam a surgir certames novos de quem nunca os levou a cabo, mais descentralizados, mais circunscritos, oriundos tanto de tunas mais antigas como menos antigas, o que faz supor que a sua organização, mesmo em tempos de crise, vale a pena numa lógica de diferenciação face ao produto existente num dado espaço e tempo: Se atentarmos com atenção - e penso que poucos se terão dado conta de tal - no Porto p.ex. hoje em dia é raro vermos certames com a presença de tunas espanholas ou centro-sul americanas quando noutros tempos e num mesmo ano tínhamos frequentes visitas das mesmas. Não me parece que seja, e repito, a crise a única justificação para tal - algum cansaço face ao clássico modelo espanhol ajudará, porventura.

Certo é que existe actualmente um novo cenário a despontar mormente a manutenção do anterior status quo - que em alguns casos roça o caricato até se visto pelo ponto de vista do público, afinal o 1º e ultimo destinatário dos eventos de tunas, supostamente. E esse novo cenário conduz necessariamente a uma nova filosofia, inflexão indirectamente provocada pelo andar do fenómeno, onde se começa de forma notória a perceber que alguns certames ditos "de referência" há muito que de tal apenas o nome detêm (explorada que é a brand até às ultimas consequências), outros mantêm a preocupação maior, o público, como sua baliza máxima, procurando ainda assim gerir elencos da melhor forma possível num misto sempre aconselhável, e outros ainda despontam actualmente como novas experiências mais adaptadas à realidade actual a todos os níveis, libertos por um lado de amarras pseudo-institucionais e por outro preocupadas com o essencial da génese de um certame de tunas sem grandes delongas. Ou seja, o próprio fenómeno dos certames -em decrescendo a nível nacional, deve-se referir -começa a reinventar-se lentamente, prova cabal da saturação de um modelo anterior que, manifestamente, está hoje claramente ultrapassado. As premissas do organizador de hoje não são de todo as mesmas do organizador de há dez anos atrás, por motivos óbvios. Ora, tal significa que manter a lógica anterior é um erro organizativo per si - que se pode manifestar mais ou menos cedo, caso a caso sempre, consoante o tempo e o espaço em causa.


Salvo raras e honrosas excepções, os Deuses do Olimpo Festivaleiro começam a cair dos seus pedestais - em alguns casos já caíram com estrondo, até - precisamente porque não se souberam reinventar, mantendo hoje uma lógica de ontem, anacrónica e por tal, comportando custos evidentes. Não basta alegar a sala cheia - e mais cheias estiveram elas no passado - quando todos sabemos das estratégias usadas para tornear a falta inequívoca do publico em geral, problema que hoje se mantêm seguramente e para todos.
O mais do mesmo por parte dos mesmos cansa o comum mortal, é da vida - e já excluo aqui os habituais clientes de certames. E é na aposta ao contrário, na tal reinvenção, quiçá do próprio conceito de certame - que foi copiadíssimo do modelo espanhol e que no essencial se mantêm inalterado - que reside o sucesso do certame de tunas - e não na mera confiança cega de que o festival se faz por ele mesmo como se tivesse vida própria quando todos sabemos que não tem, é um sucedâneo directo do estado anímico e inteligência pro-activa de quem o leva a cenário a dado momento, não mais que isso.


A quem se atreve, nos dias que correm, a levar a palco um festival de Tunas (e olhemos atrás para o tal tempo das «vacas gordas»), gaba-se pelo menos a coragem e o risco assumido. Afinal, é sinal claro também que é possível com menos fazer-se mais. E só por isso já vale a pena. Ganha acima de tudo o público, com diversificação da oferta em tempos onde ela diminuiu.




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