A Aventura da Tuna Espanhola no Século XXI



Caso não se tenha reparado, na última década e pelo menos, o cenário tuneril em Espanha mudou consideravelmente.


Não só em quantidade de tunas activas - que diminuiu drasticamente - como em qualidade musical, se comparado com a ultima década do Século XX - onde pontificaram muitas e boas tunas, com crescendo de fundações até - e primeira década do presente Século. Casos há em determinadas regiões autónomas que, hoje, apenas têm uma tuna activa - caso das Asturias, com a Tuna Universitária de Oviedo, quando nas duas décadas anteriores encontravam-se, e só na cidade de Oviedo, quatro tunas activas. Madrid teve uma baixa considerável em número de tunas activas - cidade que foi a 2ª com mais tunas estudantis em todo o mundo. Na Galiza, que teve tunas em Ferrol, Lugo, Vigo, Santiago e Corunha, hoje praticamente só resta a Universitária da Corunha, ela mesma uma junção de duas tunas corunhesas. Seviha hoje apenas tem as suas tunas activas - salvo pontuais excepções - aquando do certame de Distrito e celebrações da Imaculada, sempre contando com as velhas guardas de cada uma delas para tais eventos. E assim sucessivamente. A fundação de algumas mais recentemente - e localizadas pontualmente no mapa espanhol - não compensa em numero as inactivas ou desaparecidas de facto. Salvam o convento alguns certames em razão de curso - nacionais de Medicina, Direito, etc - e uma vez ao ano, apenas. Se mais fosse necessário dizer, verifique-se a dificuldade hoje em dia em conseguir uma tuna espanhola para actuar num certame em Portugal - comparando com a extrema facilidade nos anos 90, por exemplo.

Em oposição de fase, as que vão subsistindo fazem-no à custa das suas gerações mais velhas para compor os elencos em cenário. Na mesma linha de raciocínio, assistimos ao fulgor das Quarentunas e Tunas de Veteranos no lado de lá da fronteira, com clara dinâmica própria, mantendo até um circuito de certames entre elas, com um número considerável de agrupamentos.

Que se pode aferir?

O envelhecimento geracional das tunas espanholas é um facto, que vem de trás, mas agora mais preemente, por falta de gente nova que queira fazer parte deste fenómeno. A conjunctura social e económica em Espanha "obriga" as gerações mais novas a priorizar a sua vida social na universidade. Por outro lado, os valores tuneris por excelência não são, aos olhos destas novas gerações, sequer atractivos, mais preocupados com outras ondas culturais certamente mais interessantes aos seus olhos, por não obrigarem a quesitos mais obrigacionistas que uma tuna sempre requer. A imagem geral degradada da tuna em Espanha não auxilia, imagem essa mais grata a outras gerações por motivos históricos, politicos e sociais. Basta verificar num certame espanhol a média - alta - de idades das plateias.

Tudo isto para dizer:

Que a evolução da tuna estudantil espanhola, mais ortodoxa historicamente face ao nosso caso, garante-lhe a subsistência no tempo e no espaço, mormente os altos e baixos enquanto fenómeno cultural perfeitamente circunscrito; paradoxalmente é por força dos mesmos motivos que as oscilações na sua atractividade existem e ao longo dos tempos.

Constata-se, pois, o evidente: Que são, neste momento, as gerações mais velhas a garantir a continuidade do fenómeno tuneril espanhol, seja por força do envelhecimento da média de idades das fileiras das tunas ainda activas, seja por força do crescente fenómeno em Espanha das Quarentunas e Tunas de Veteranos, que assim vão mantendo a tradição tuneril espanhola à tona, tradição essa desinteressante hoje para a esmagadora maioria dos jovens que ingressam nas universidades espanholas - reflexo do tal contexto social actualmente existente.

Não sendo exactamente transponivel o que ocorre do lado de lá para o lado de cá - por razões historicamente óbvias - existe contudo uma constatação de facto que pode ser transposta para o lado de cá: O garante da manutenção do fenómeno tuneril não se baseia na competição entre tunas. É uma ilusão de óptica achar-se tal. A manutenção do fenómeno tuneril é muito mais abrangente e culturalmente superior do que a mera competição, mesmo que sejam os quesitos genéticos da tuna que a dado tempo e espaço, a prejudiquem, pois ainda assim ela encontra ardilosamente formas de se manter à superficie consoante o andar do relógio. Se não, verifique-se que a tuna em Espanha hoje está pujante na sua vertente Veterana - enquanto a dita "regular" definha - onde, sintomaticamente, não há competição. Regresso ao passado? Talvez. Mas parece-me, vistas as coisas com os olhos bem abertos e à face da história tuneril, que será mais o assegurar do futuro da Tuna. Ganha muito mais o fenómeno espanhol em consistência intemporal face a nós. Perderá contudo na espectacularidade face à tuna nacional. Resta saber o que será, de facto, melhor. E acima de tudo, o que será mais importante, se virmos com mais profundidade.



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