A Aventura do Conclave não Morde



"Conclave não morde". Foi com este trocadilho que o meu amigo Bruno Rocha - se por acaso estiveres por aí, apita... - então, resolveu fazer alguma piada em torno do 1º Conclave Tvnae aquando da 9º Edição do FITU do Porto. Mais que a piada em si, foi a reunião de tunas em primeira mão, uma espécie de ante-camera para o que veio a ser, anos mais tarde, em moldes distintos, o ENT.




De facto, a pretensa ironia do Bruno não residiu somente na mesma, se vistas as coisas no tempo e no espaço. Um conclave de interessados em determinado tema não deveria "morder". Deveria ser um espaço que, mais do que os pequenos casos residuais, deveria assentar numa perspectiva saudáve, extensa e ampla do todo do fenómeno. De certa forma, conseguiu-se tal como o advento dos ENT´s, há que o dizer.

Se houve - e esperando que assim continue - espaço por excelência dedicado ao debate amplo, profundo, assente em premissas historicamente delineadas e cincunscritas, em factos actuais e reais, em pressupostos perfeitamente balizados, esse espaço é o Encontro Nacional de Tunos.

Arremessa-se a sua fraca participação. Concede-se. Mas reflexo do que realmente importa aos presentes e aos ausentes; nesse capitulo é um bom termometro do fenómeno. Em Porto Rico quando algo similar ocorre é ao contrário, não há cadeiras para tantos interessados. São espelhos de cada uma das posturas face ao mesmo tema, a Tuna estudantil. Se algo desta magnitude se medisse apenas e só pelo numero de interessados então nem valeria a pena investir tempo na sua organização e produção. Assim, porque razão existe o ENT? Alega-se que não tem carácter formalmente institucional porque apenas de Tunos - e não de Tunas de forma oficiosa ou oficial, logo, desvinculativa. Imaginem por um segundo sendo o ENT de Tunos - que nos mostra participações a oscilar entre os 50 e as 100 pessoas - quantas Tunas de forma institucional se fariam representar. Porquê a óbvia conclusão? Falta de voluntarismo, claramente, a par de um certo receio fundado na trincheira que cada tuna portuguesa cavou em torno de si mesma, onde o "inimigo-está-sempre-à-espreita" - vá-se lá saber em que guerra estão. É uma incapacidade formal de lidar com as outras de forma oficial que torna tudo isto explicável, como se tal fosse derivar inevitavelmente em perda de algo ou coisa alguma. Nada mais falso.


Tomemos como exemplo o Folclore Canário. Os folcloristas canários debatem, arremessam temáticas, disputam primazias, parecem tunas estudantis portuguesas. Mas fazem algo mais: Partilham. E foi e é isso mesmo que possibilita que o todo do folclore canário seja reconhecido aquém e além fronteiras, com tudo o que daí advém de positivo. São conhecidos os grupos de cordofones canários fora de Espanha de forma altamente prestigiante, tudo isto sem prejuízo do normal debate, picardia, disputa entre eles, que também ocorre certamente. Porém, o "campeonato" deles não se resume ao trivial, vai mais além. E é esse ir mais além que por cá, não há - ou residualmente existe.

Esta canibalização, postura autofágica das tunas nacionais em nada a promove, desenvolve, potencia mais à frente enquanto cultura, pelo contrário, só a deixa mais entrincheirada em si mesma. Como dizia nos anos 90 o Mário Fernandes, "eu faço bem, tu fazes bem, ele faz bem e nós fazemos todos mal". E é aí em que todos nós continuamos olimpicamente. A fazer enquanto todo, Mal. E é aqui que o ENT tem a sua maior virtude, promover um espaço onde todos possamos fazer Bem. Por isso é que como dizia o Bruno, "Conclave não Morde". Experimentem ver a coisa fora da caixa, como se diz agora. Verão seguramente que há mais vida além da nossa tuna.


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