A Aventura Microscópica




Existem várias vantagens em não estar no activo. Aliás, inúmeras. Desde que o fiz por vontade exclusivamente própria, tenho apreciado o fenómeno tuneril de outra forma sem, contudo, deixar de sentir o seu pulsar por dentro, uma espécie de out-of-the-box, uma visão mais creativa, mais liberta de clichês a que a militância activa obriga e que impede, por tal, sair-se de um rotativismo de actos, posturas, ideias pré-concebidas e formatadas que fossilizaram, diria até, de forma perniciosa: Há muita "tradição" no fenómeno que acaba por ser perniciosa ao mesmo.



Estar fora mas "por dentro" é um exercício deliciosamente interessante, sob vários pontos de vista. O primeiro de todos é a tal visão de fora face ao mainstream, necessáriamente distinta.


Depois, outra vantagem acrescida: Conhecer de cor e salteado os actores e com eles manter, genericamente, saudável relacionamento e natural contacto. Em alguns casos passei a conhecer outros que não conhecia, por força - lá está - de um posicionamento fora do carrossel costumeiro.


Numa terceira vertente outra vantagem acresce, a liberdade absoluta e inalienável de interpretar o que agora vejo e sobre tal escrever o que bem entendo. Só esta liberdade per si é absolutamente priceless; dificilmente hoje dela abdicaria a favor de uma qualquer rigidez orgânica tipica deste tipo de agrupamentos. Note-se que anteriormente já não o fazia - escrevo há mais tempo do que muitas tunas têm de vida; acontece que a militância activa observa regras que não se colocam fora dela. O que aumenta ainda mais a liberdade - para lá do gozo em si mesmo, admito.


O que nos leva ao cerne da questão. Os ditâmes da militancia activa podem ser um hara-kiri, provocando suicídio colectivo, quando usados de forma perniciosa e mal intencionada. O que deveria ser um postulado de regras que servem para defender - se bem interpretadas e melhor aplicadas - o próprio grupo, podem-se transformar num ápice na cicuta que levará à própria morte.


O que nos remete para outra noção: Quem são, hoje, os actores de facto que interpretam regras claras à sua maneira, de forma até a levarem o grupo para precisamente o oposto do que as mesmas regras indicavam, então, à sua fundação? Será que as regras incutidas antes e aceites por todos a cada passo se transformaram numa arma de arremesso para meia dúzia, que, minados por questões colaterais e comezinhas, atiram contra, sem pensar que tal arremesso não é nada mais, nada menos, que a sua própria condenação a uma morte quase certa? A leitura enviesada de regras não será - dito de outra forma - ela mesma suicidária?


O lado positivista da não militância é ter a magnífica hipótese de perceber e ler estas questões de um ponto de vista único. Tranquilamente único, note-se. Mais: Possibilita a percepção fácil em visão periférica do todo, numa espécie de camera a 360º, que faz o varrimento dos planos existentes de forma absolutamente distinta do que se tivesse por dentro, a militar de facto: Todo um previlégio.


Tem sido uma risota pegada, aliada a um exercício deveras interessante sob muitos prismas. Continuo a ver formiguinhas com catarro a quererem tossir, pujança de uns, a pseudo-agendazinha do casalinho, o ghosting de outros, a azia destes, o surgir daqueles, o mercenário dos ensaios e por aí fora. É como ver o zoo mas como visitante, fora da jaula. 


Há coisas que, ainda assim, nunca mudam.


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