A Aventura Lusa em Certamenes Castelhanos



O Jornal ABC de Sevilla relata, em 25 de Abril de 1982, a ocorrência de um certamen internacional onde participaram e cito “Ciento veintitrés tunas procedentes de España, Portugal, Colombia, Italia, México y Puerto Rico, con un total aproximado de dos mil tunos”. Sim, 123 Tunas. Provavelmente o maior festival de tunas estudantis alguma vez realizado até hoje - neste que fez parte dos conhecidos Grandes Certamenes do pós ditadura Franquista - iniciados em 1977 em Granada, continuando depois em Salamanca 1978, Santiago de Compostela 1979, Huesca 1980, Múrcia 1981, Saragoça 1983, Córdoba 1984, Alicante 1987, Burgos 1988, Múrcia 1989.


E sim, teve a presença de uma tuna lusitana. A TAUC , à data - 1982 - seguramente a única tuna universitária activa em Portugal. Diz quem lá esteve e na primeira pessoa que resultou estranha aos olhos dos espanhoís a formação lusa, sentada,  com reportório exclusivamente instrumental, contrastando com a alegria, movimento e então festeira postura dos Tunos castelhanos.




Provavelmente terá sido a primeira participação de sempre de uma tuna portuguesa num festival de tunas em Espanha.


Em 1988 a Tuna Universitária do Porto desloca-se a Burgos tendo sido distinguida com o prémio para a Tuna Más Original. Os Grandes Certamenes desaparecem na transição dos anos 80 para 90 e nascem entretanto certamenes provinciais, de circuito (ou seja, por cursos), de distrito e certames internacionais mais pontualmente.


Em 1993 a Tuna Universitária do Porto participa no Certamen Internacional de Tunas Universitárias Múrcia Costa Cálida, onde se consagra a Melhor Tuna. Foi a primeira tuna portuguesa a vencer um certame em Espanha. Em 1994 a Tuna Académica da Universidade Lusíada do Porto alcança o mesmo galardão no I Certamen Internacional de Tunas de Ciudad Rodrigo tornando-se na segunda tuna nacional a atingir tal feito. A Tuna Universitária do Minho no mesmo ano foi galardoada como a Melhor Tuna do II Certame Internacional de Tunas “Ciudad de Badajoz”. Ainda no mesmo ano a anTUNiA vence exaequo com a Tuna Universitária do Porto e nas comemorações do V Centenário do Tratado de Tordesilhas” o Festival Ibérico de Fados e Estudantinas Portuguesas “Cidade de Burgos”. 


Estudantina Universitária de Coimbra, Tuna Bruna-Tuna Universitária da Figueira da Foz, Real Tunel Académico-Tuna Universitária de Viseu, Estudantina Académica do ISEL, Tuna Universitária de Lisboa, entre poucas mais, são exemplos de tunas nacionais que já venceram um certame internacional de tunas universitárias na vizinha Espanha. Não sendo um facto raro não é algo recorrente sequer. Ainda existe alguma resistência aqui e ali - tal como cá quando visitados por tunas espanholas - mas que vai cedendo face à crescente qualidade musical e cénica que as tunas nacionais apresentam amiúde, para lá das normais diferenças quer de reportório, quer de indumentária (mesmo que no nosso caso haja alguma mais próxima do traje de tuno espanhol), quer de postura até - diferente. Por outro lado é cada vez mais raro assistirmos a uma nomeação de Melhor Tuna para uma castelhana nos nossos certames internacionais, fruto seguramente da alta qualidade musical que por cá existe actualmente no patamar mais alto das tunas nacionais.


2018 foi particularmente fértil neste apartado com a vitória em Maio da Tuna Universitária de Lisboa no Costa Cálida e agora em Julho, curiosamente na mesma cidade, pelo Real Tunel Académico mas agora no Barrio del Carmen - algo que é sempre de assinalar.


A real importância destas visitas a certames internacionais reside, essencialmente, na troca de experiências entre realidades tuneris distintas, onde todos aprendem com todos. A contextualização histórica em cima mostra precisamente isso, bem mais além do que a mera premiação - que não sendo de todo despicienda é sempre reveladora de algumas notas sobre a evolução musical - ou não - do fenómeno tuneril cá, bem como fora de portas. Noutro prisma, apreende-se como os outros interpretam, vivem e sentem a tuna e suas vivências quotidianas - e aí temos muito a aprender, ainda.


Esta “Aventura” é dedicada ao meu amigo Jorge Falcão, do RTAV, recente desaparecido: Ele certamente está contente com mais este sucesso do seu RTAV...




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