A Aventura da Essência

 




Há - entre os vários desvios existentes - na interpretação historicamente correcta do que é a Tuna, no caso, estudantil, um erro crasso, propagado aos sete ventos como sendo insofismável, não podendo por tal ser colocado em causa. Acontece que pode




Falo do lado mais leve, humorístico, despreocupado, da Tuna em palco.




Não é uma obrigação: É – e mais uma vez ... – uma opção de cada Tuna. É o que comprova o estudo da Tuna: Antes do “boom” não era assim, pelo oposto.



Explica-se:


 

Se analisarmos a Tuna desde o seu surgimento, no último quartel do Século XIX, e até meados do Século XX, percebe-se o evidente neste apartado: A seriedade da Tuna quando em actuação, bastando ler relatos de época, que dizem, de forma clara e objectiva, o quão sérias as mesmas eram – longe, portanto, de algum lado humorístico ou mais leve, quando em palco. 


Os relatos na imprensa provam tal, de forma objectiva, resultado prático do enquadramento e respeitabilidade social que a Tuna detinha, então. A Estudantina Fígaro chegou a apresentar-se perante o Czar da Rússia, p.ex. – entre outros exemplos de apresentações de várias Tunas a autoridades locais e nacionais, em vários quadrantes geográficos. Esse era o normal, portanto: A Tuna ao actuar fazia-o de forma séria, serena, tranquila - e não de forma leve, despreocupada e humorística. Mais uma vez, Facto.



(e aqui abro parêntesis para afirmar o óbvio: está-se a dizer que era assim - não como deve ou não ser, porque não se coloca o imperativo nesta questão, como, aliás, em quase todas as questões a ver com a Tuna.)

 

 

Mais: No tempo da ditadura Franquista em Espanha, os certames dessa época eram realizados à porta fechada e com a única presença dos Jurados, sendo valorizada exclusivamente a qualidade musical das interpretações, sem que fosse permitido o mínimo devaneio humorístico. Ou seja, nem sequer tal era permitido em palco. Facto, mais uma vez.



E porque surge esse lado humorístico, hoje, nas apresentações em palco?



A resposta é simples: Quando termina a ditadura espanhola – 1976 – as Tunas libertaram-se do espartilho ditatorial e, acto contínuo, puderam - e fizeram – tudo o que bem entenderam, conferindo desde logo esse tal carácter humorístico nas actuações, até então negado pela ditadura. Reacção natural, nem sequer imposta, espontânea, de quem viveu sob regras rígidas até então. A reacção foi óbvia, tornando assim o espectáculo da Tuna em algo mais apelativo, policromático, festivo – em oposição ao ocorrido até então.


Ora, se a Tuna portuguesa renasce no “boom” de fins anos 80/inícios de 90 do Século XX, tal ocorre cá, grosso modo, 10 anos após a queda da ditadura espanhola. Se verificarmos a génese do “boom” de então, verifica-se a cópia do modelo espanhol, já com 10 anos, de festa, alegria, humor em palco, etc – que foi precisamente o que ocorreu. Ida a certames espanhóis de então (os “Grandes Certamenes”) e programa da RTVE “Gente Joven” (inícios anos 80) ajudaram sobremaneira a essa influência nas – muito poucas - Tunas portuguesas de então. Facto.


Resumo: O caracter festivo, humorístico e policromático, em formação de pé, abanando as suas filas de forma intercalada (entre outros pontos) resulta, precisamente, e ainda hoje, da cópia do modelo espanhol de então. Mais uma vez, Facto.


Já a evolução musical que tivemos é, por outro lado, completamente da nossa lavra, resultando numa clara distinção face ao paradigma espanhol – mais conservador ainda hoje e neste apartado. Mas quanto à postura em palco, continuamos a ser, grosso modo, fotocópia do modelo espanhol – com, aqui e ali, pequenas adaptações.


Concluindo:



1. Copiamos o modelo espanhol o que toca à postura em palco: De pé, alegre, policromática, festiva e humorística; até então a Tuna portuguesa pré “boom” não era assim, antes pelo contrário. Mais: O nosso modelo tradicional de Tuna nem sequer é esse, recuando mais atrás no tempo.



2.  Mormente a cópia, tal postura não é uma obrigação; Se antes não era o que ocorria, não se pode aferir carácter mandatório a algo que surge depois  - no “boom”, copiando os espanhóis. É como validar o enredo de um filme que se começou a ver a meio, não percebendo o que se passou antes: Origina erro.



3. A essência da Tuna é a Música – Facto que a história comprova – e não o que se lhe pode juntar, seja humor, festa ou outra postura, sisuda ou não, alegre ou não.  A História prova que, mudando a postura da Tuna, o único denominador comum está sempre presente: A Música




A Tuna não é obrigatoriamente humor - isso é da lavra do humorista. Nem é mandatoriamente séria. A Tuna é Música e, depois, em adenda – conforme o tempo, actores e circunstância – poderá ser algo mais. Nem sequer é obrigatório fazer-se piada em palco ou ler um poema de Pablo Neruda. O acessório não vale mais que o essencial, mesmo que ao acessório seja agradável ao público (que quando vai escutar uma Tuna, espera legitimamente, e antes de tudo, ouvir Música; caso oposto, estaria no espectáculo errado ou, em última análise, a ser defraudado).




única coisa obrigatória em Tuna é produzir (boa, preferencialmente) Música: Caso oposto, não é uma Tuna.



Todo o restante é acessório, por mera opção estética.






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