História da Tuna |



Lendas, mitos e "estórias" envolvem aquilo que é a História da Tuna Universitária ao longo dos séculos, principalmente naquelas que foram as suas formas pré-tunantes.


Desde que o Estudante é Estudante que as mesmas se reproduzem, com vários formatos, muitos deles diluídos no baú da memória e que vão suportando essas mesmas lendas, mitos e estórias. O que a memória vai diluindo é contraposto pelos factos concretos, narrativas documentais, provas de iure, única forma de credibilizar de facto a verdadeira História da Tuna Universitária, do Tuno, enfim.


Um dos maiores erros largamente cometido no que se refere ao estudo da Tuna é a falta de percepção temporal do fenómeno; vê-se o que antes aconteceu pelo prisma do que é hoje a Tuna; uma falácia, portanto.


Como diria Lucrécio, de nihilo nihil, nada vem do nada. E seguramente que as várias formas pré-tunantes existentes desde séculos remotos são base e sustentação para a formação mais tardia e de facto daquilo a que se pode chamar de Tuna Universitária enquanto instituição organizada, hierarquizada e de carácter permanente. Esta última somente nasce nos finais do Século XIX e não antes, onde existia apenas e tão só o hábito de "correr a Tuna" como prática, desorganizado e por tal, espontâneo e não exclusivamente do foro do Estudante Universitário, note-se.


Em suma, não foi no Século XII que se formaram Tunas, o Goliardismo não é pai da Tuna Universitária e o bandolim nada tem a ver com o Rei de Tunes, entre outras "estórias" que em pouco ou nada se relacionam com a História da Tuna Universitária. 


Sinalizar no tempo uma Tradição é tão perigoso como afirmar em que ano nasceu o Barroco.
Até meados do Século XIX apenas se pode falar em "estudantes que iam de tuna", de forma espontânea, fruto do momento e da necessidade que aguçava o engenho. Existe vasta documentação histórica que atesta o hábito, o costume de "ir de tuna", que não a fundação de facto de qualquer Tuna enquanto instituição.


Resulta portanto fantasioso e erróneo situar a fundação de qualquer Tuna enquanto instituição até aproximadamente ao último quartel do Século XIX.  Na sua visita a Portugal em 1888, a Estudantina Compostelana - e na época, tal como hoje, Estudiantina e Tuna eram dois termos que definiam o mesmo conceito - apadrinhou a Tuna da Universidade de Coimbra, nascida nesse mesmo ano. A mesma Estudantina Compostelana serviu de inspiração à fundação da Estudantina Portuense, em Março, e da Estudantina de Coimbra, em Maio.


Em 1889, nasce a Estudantina Viseense (uma outra descoberta recente dos citados autores do "QVID", posterior ao livro) e temos registo de uma Tuna Compostela do Funchal - a imitar a original - e em 1890 a Estudantina da Escola Médica de Lisboa e a Estudantina da Figueira da Foz. Em 1891 regista-se também a existência da Tuna Académica Lamecense. São os mais antigos exemplos (sem contar com as fugazes formações da década de 1870 que ocorrem em épocas de carnaval) da institucionalização da Tuna em Portugal (seguindo dezenas de fundações nos anos seguintes). Em 1895, será fundada a TAL (Tuna Académica de Lisboa) e a Tuna Académica Vilarealense.


Em 1890 a Estudantina Académica do Porto - não exclusivamente composta por universitários, note-se - sob a direcção de Raúl Laroze Rocha, visita então Madrid e Salamanca, conforme atesta vária imprensa escrita espanhola à época. Em finais do Século XIX, inícios do de XX, o fenómeno das Estudiantinas popularizou-se em Espanha com particular destaque para a Estudiantina Fígaro que influenciou sobremaneira a formação de agrupamentos deste género um pouco por toda a Europa e não só Península Ibérica, para lá da América Central e do Sul.


Essas Estudiantinas não eram compostas exclusivamente por estudantes universitários e em alguns casos nem ligadas à Universidade eram, sequer.


A crescente popularidade das Estudiantinas como a Fígaro ou a Pignatelli, p.ex - finais Século XIX e inícios do de XX - guindou este modelo para patamares de elevado sucesso social e até politicamente utilizadas, desviando-se ou mesmo ignorando de todo o hábito de antanho do "correr a tuna" característico do estudante pobre de tempos anteriores. O formato Estudiantina vence também pela força da comparsa carnavalesca tão em voga naqueles tempos - a Estudiantina de Salamanca esteve presente no Carnaval do Porto organizado pelo Clube Fenianos, havendo relatos da sua participação em 1890 e anos posteriores; em 1905, por exemplo, foi distinguida com o 2º prémio do cortejo (mesmo apresentando-se fora de concurso), bem como existe constância neste mesmo evento e ano da Estudiantina de Córdoba.


Tuna e Estudiantina são sinónimos no Século XIX, logo, seja ou não universitária é válido o termo “Estudiantina” para designar ambas. A Estudiantina, no que se refere a agrupamento musical no Século XIX tem três significados: um, o que hoje é uma tuna, cujos membros se vestem usando o padrão imposto pela Estudiantina Espanhola que visitou Paris em 1878; o segundo, comparsa de carnaval que se veste usando o padrão imposto pela Estudiantina Espanhola que visitou Paris em 1878 e o terceiro, orquestra profissional de pulso y pua que também se veste como a Estudiantina Española que visitou Paris em 1878, cujo maior exemplo é a Estudiantina Fígaro.


O termo Tuna no seio universitário só tem um significado: Estudantina Universitária. No caso português, o termo Tuna é usado primeiramente no âmbito popular, sendo depois importado pelo meio estudantil.


O progresso e o tempo ditaram as suas leis; no virar do Século XIX para o de XX já o estudante não precisava de percorrer a pé caminhos entre a sua cidade e aquela onde estudava ou outras.
Deu-se o advento dos caminhos-de-ferro, do telégrafo e do barco a vapor, o mundo evoluía então, tornando obsoleto e desnecessário o conceito puro de "correr a tuna".


O Estudante universitário viu-se então perante a necessidade de se demarcar do conceito de Estudiantina, resgatando alguns hábitos de séculos anteriores mesmo que os deturpando ora por força dos novos tempos, ora por puro oportunismo. Assim, surge o termo Tuna para distinguir os agrupamentos exclusivamente compostos por estudantes universitários que, desde logo, pretendiam o tal resgate de tradições de outros séculos, amalgamados e em alguns casos adulterados, procurando assim distanciar-se do conceito de Estudiantina.


Somente na aurora do Século XX é que se começam a formar Tunas de facto, sendo que no caso espanhol poucas são as fundadas nesse tempo, sendo a esmagadora maioria surgida após a queda de Franco e consequente extinção do Sindicato Espanhol Universitário, que as controlou como forma de propagandear o regime Franquista por um lado e, por outro, de controlar a natural irreverência estudantil face ao mesmo regime. As becas das Tunas espanholas são reinventadas na década de 50 do Século XX, p.ex - não sendo, portanto, peças datadas de séculos anteriores, errónea fantasia entre muitas.


Em Portugal apenas se pode constatar de facto a existência de duas Tunas universitárias antes da década de 80 do Século XX - à imagem e semelhança das Estudiantinas atrás citadas - sendo que a esmagadora maioria das Tunas Universitárias surgidas em Portugal são fruto do movimento de explosão das mesmas datado de meados dos anos 80, inícios dos de 90 do Século XX, por força do ressurgimento da Praxe Universitária - que adoptou a Tuna para dentro do fenómeno - e da liberalização do ensino superior operada na década de 80 em Portugal, juntamente com elevada taxa de natalidade dos anos 60 e 70 que potenciou a chegada em massa de jovens ao Ensino Universitário português nos anos 90.


De referir que a Tuna em Portugal não nasce no seio universitário - estes agrupamentos de cariz popular receberam outro tipo de designações, além do de tuna: orquestra popular, orquestra típica, conjunto típico, entre outras - e é a Universidade que adopta a Tuna conferindo-lhe então o carácter universitário. De referir ainda a constância ao longo de todo o Século XX e antes de tunas liceais um pouco por toda a geografia nacional, bem como de tunas populares. Também o termo Académica e/ou Académico, não exclusivo do meio universitário, deve-se notar, é adendado à Tuna.


Assim, conclui-se que a Tuna Universitária portuguesa apenas nasce em meados do Século XX - com as excepções acima referidas de Porto e Coimbra e que se mantiveram ao longo dos tempos com mais ou menos folgor - mais concretamente entre a 2ª metade dos anos 80 e 1ª metade do de 90, sendo que posteriormente se fundaram outras tantas até ao cenário hoje conhecido. Importaram as mesmas então várias características usuais nas suas congéneres espanholas - a postura de pé, o bailar do estandarte e das pandeiretas, os símbolos nas capas, etc - cruzando-se essa influência da Tuna espanhola com as sinergias próprias do ressurgimento das Tradições Académicas em Portugal após o 25 de Abril de 1974, com particular destaque para o período compreendido entre 1985 e 1995, conhecido como "boom" tunante português. 


A Tuna de cariz universitário em Portugal é um fenómeno recente no tempo, importando por um lado o conceito já existente de Tuna popular, misturando o mesmo com o conceito de Estudiantina da viragem do Século XIX para o de XX, bebendo dos dois únicos exemplos existentes com carácter permanente no seio universitário nacional já eles influenciados pelos exemplos anteriormente citados, cruzando por fim com o modelo espanhol importado em pleno advento das Tradições Académicas e Praxe universitária, na sequência da liberalização do ensino superior em Portugal da década de 80 do Século XX.


Tuna é, antes e acima de tudo, uma expressão musical. Que pode ser, depois, Universitária, Popular ou de outro qualquer âmbito. É o que a investigação séria, desprovida de romantismo e centrada na verdade prova.




Autor: Ricardo Tavares
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