A Aventura do “Boom”e visão periférica do mesmo fenómeno.

Tuna de Derecho de Valladolid


Provavelmente irei escandalizar as mentes mais (pseudo) conservadoras com o que irei afirmar. Provavelmente deixarei outras – as mais iluminadas porque abertas à verdade histórica – com uma perspectiva distinta deste período tão intenso e romântico quão desconhecido por ainda muito vivo nas nossas memórias (embora pareça uma contradição, é efectivamente desconhecido por nunca analisado mas antes intensamente vivido). Quiçá irei contra os cânones do Historiador e desrespeitarei a necessária distância temporal para observar os factos com mais clareza. Mas arriscarei, ainda assim, à luz da pesquisa feita no âmbito do “Qvid Tvnae”.  22 anos de distância dará para assumir o risco.


Começo pela minha visão – polémica, admito – desse período, à distância de 22 anos, mais coisa menos coisa, de acordo com os dados factuais que caracterizaram esse tempo em concreto, e que o “Qvid Tvnae” tão bem desenvolve e apresenta:


È claramente influenciado pela Tuna espanhola e a esta deve a esmagadora maioria dos traços a que a Tuna, enquanto agrupamento musical estudantil, tem e possui historicamente. Desde a composição à estrutura organizacional interna, à iconografia e instrumentos – adaptando-se em função de cá, do que é português, o cavaquinho em vez do quatro, o bandolim em vez da bandurria, etc – passando pelo reportório apresentado então pelas recém-nadas tunas portuguesas (grande parte delas em espanhol ou adaptações de temas espanhóis para letra portuguesa – Cielito Lindo » Cielito Tuno; Imagenes de Ayer » Imagens de Outrora e assim sucessivamente). Olhemos com olhos de ver e ouvidos sérios as edições fonográficas da época - Cassetes e Vinil. Ouçam os LPs e EP´s da Tuna do Orfeão Universitário do Porto das décadas de 60 e 70 (reedições) e estão lá os "Clavelitos" e a "Fonseca".


É a Tuna portuguesa nesse período, e quanto aos seus traços identificativos, resultado mais premente da influência do único modelo conhecido então – a Tuna espanhola – do que até dos próprios modelos nacionais com 100 anos, ilustres desconhecidos então de tudo e todos. Mais afirmo, é a Tuna portuguesa do “boom” 70 % e pelo menos resultado directo e indirecto do que era, à época, a Tuna espanhola. Os restantes 30% divido-os pela influência da Praxe e Tradições Académicas na Tuna e pelos circunstancialismos socio-económicos daquela época, então, em Portugal e mais concretamente, no Ensino Superior. Ou seja, é a tuna portuguesa no”boom”  filha da tuna espanhola com as devidas adaptações estéticas – e por vezes nem isso, até (tanto traje inspirado no de tuna espanhol existiu e existe). Ponto período.


Logo, como fenómeno musical, como forma de agrupamento musical que é – a Tuna em sentido lato – obviamente que não cabe por absurdo 1º) afirmar que a tuna nasce na e da Praxe, ambas as hipóteses falsas e 2º) que a tuna portuguesa nada tem a ver com a espanhola e por tal a renega por falso e absurdo, pois todas as circunstâncias factuais e documentadas provam precisamente o oposto. A tuna portuguesa deve em maior dose, na maior proporção, o seu ressurgimento á tuna espanhola. Só depois deve ao resto.
A RTVE teve papel fulcral no “boom” e sem saber dele, por força do “Gente Joven”; foi muito mais importante para o ressurgimento da tuna portuguesa a Televisão Estatal Espanhola do que qualquer comissão ou conselho da Praxe. Por exemplo. Bem como o foi o Ministro da Educação da época ou a Descolonização; Um dos problemas neste tipo de análise é não se ver para lá do que está em frente aos nossos olhos, para lá da cortina do tempo e do espaço.


Admito alguma contestação a esta minha posição; naturalmente quem passou por esse período viveu-o intensamente e dentro da Praxis, sempre, pois quem restaurou a Praxe e as Tradições nesse tempo grosso modo foram os mesmos que fundaram as respectivas tunas; uma coincidência por força circunstancial - e não uma inevitabilidade. Logo, a confusão entre as duas coisas foi – e hoje paga-se efectivamente a factura da mesma – mais que muita, para lá do desejável, originando a promiscuidade entre planos que são distintos e que devem permanecer distintos.

Muita da “culpa” dessa promiscuidade deve-se a nós, os que estivemos na linha da frente de ambos os planos, o Praxista e o Tuneril. Basta para isso imaginar, somente, o seguinte: Imagine-se que ao restaurar a Praxe ressuscitávamos – ao invés da tuna -  por exemplo académico, o grupo de musica popular portuguesa – tão em “moda” na década imediatamente anterior. Hoje teríamos Festivais de Música Popular Portuguesa ao invés de certames de Tunas. Simples (e a TAUTAD andou lá perto…). Tão simples que dada a sua simplicidade até um caloiro entende. Ou competições de Xadrez. Ainda bem que não nos deu, no Porto, para ir de K4 para o Douro, digo eu: teríamos um replay da célebre Oxford-Cambridge mas com 77 barcos. Fomos diligentes. Deu-nos para recuperar a Tuna. Mas que Tuna recuperamos? Onde fomos beber a tuneril tradição? À que estava à mão: a Espanhola.


Começo como iniciei: 70% do que éramos, no “boom” – hoje não se pode dar tais valores, de todo – à Tuna espanhola o devemos. Os restantes 30% dividem-se em doses desiguais a outros factores, onde está a Praxe incluída mas não só.

Houve mais factores a subsidiar essa explosão tuneril universitária que não somente a Praxe, tão ou mais importantes do que esta, até porque sem elas não haveria esse “boom” seguramente, sequer: Basta p.ex. nomear aqui a liberalização do Ensino Superior então cruzando-se com a taxa de natalidade elevada nos anos 70; sem tais factores sociais nada do ocorrido teria base, sequer, para se suceder, para ter sido como foi.

O que equivale a dizer que muito do percurso feito até hoje é por tal condicionado e o que hoje somos por força de tal se deve.


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