A Aventura do P.R.E.T - Allegro ma non troppo



“A Tuna nacional acantonou-se progressivamente no certame e por força disso e com tal, regressou ao modelo indoor da transição do Século XIX/XX sem saber sequer de tal facto, numa espécie de repetir da História; Por força de tal, saiu das ruas que ocupou no "boom" e nos anos imediatamente subsequentes, bem como deixou a Serenata espontânea praticamente desaparecer”


 Tuna Académica do IPAM 


Outra característica do “boom” tuneril, herdada da tuna espanhola – mais uma vez – foi o Certame ou Festival de Tunas, que no país vizinho tinham já larga tradição, ainda no tempo do Franquismo e que continuaram, em moldes distintos, com o advento da democracia espanhola naquilo que foi apelidado de “Grandes Certamenes”. Ora, no “boom” tuneril foi-se resgatar o único exemplo – obviamente – que existia, o modelo de certame espanhol, e nas suas características inatas – os prémios, a estética, a sequência, os critérios avaliativos, etc – com adaptações aqui e ali. Ou seja, quando se dão os 1ºs certames em Portugal o figurino dos mesmos é copiado ao modelo espanhol existente.


Paradoxalmente, numa 1ª fase do “boom” muito poucos eram os certames competitivos por oposição a eventos de vária índole que não festivais, com primazia para Saraus e encontros de tunas vários. Só com as fundações de tunas da 1ª metade da década de 90 surgem os respectivos certames competitivos, à imagem e semelhança, por sua vez dos 2 ou 3 que existiam á data, que por sua vez, foram “beber” ao vizinho espanhol o conceito. Daí à mimetização à escala nacional foi um pequeno passo, criando – mais – um mito que carece de comprovativo, a de que cada tuna tem de ter um certame competitivo por génese – não só não é uma obrigação como não decorre da prática espanhola, sequer, tal noção que, em Portugal, se tornou quase uma obrigatoriedade, numa “tradição” que carece de fundamento histórico; essa noção de que atrás de uma Tuna está o seu certame apenas subsidia uma forma encapotada de provocar o efeito “Recepção-Convite”, o que, sendo certamente legitimo o mesmo não deixa, porém, de ser constatável e claramente um status quo derivado do “boom” português a expor.


A Rua e a Noite foram um dos pontos de honra da tuna nacional dos primeiros momentos do “boom”, que foi abandonando progressivamente á medida que o certame ia ocupando importância maior no desenrolar da vivência tuneril nacional, num imenso jogo de espelhos onde a medição substituiu a mera fruição. Nunca como então a Serenata foi elevada a momento único e singular da tuna. Esta trespassou a Serenata e partiu para novo negócio, o Festival. Os Encontros de Tunas diminuíram então, bem como os Saraus e Récitas.


Ao acantonar-se a tuna nacional no certame, acaba ela por si só por se acantonar no teatro, no auditório, lugares onde se realizam mais de 95% dos certames competitivos portugueses – contrastando com a prática espanhola, p.ex. – fazendo regressar a tuna nacional ao modelo da transição do Século XIX para o de XX, regra geral em espaços fechados tocando, sentada e apenas com o maestro de pé a reger a mesma. O curioso é que esse regresso ao espaço fechado é feito em total desconhecimento dessa característica de fins Sex. XX/inicio XX em Portugal, que nas poucas tunas existentes por cá foi até à década de 80 do Século XX ou até se mantendo – caso da Tuna do Liceu de Évora ou da Tuna Académica da Universidade de Coimbra (TAUC), p.ex..


No “boom” a gestão da vivência tuneril foi efectuada de uma forma equilibrada, equilíbrio esse que foi desaparecendo com prejuízo da espontaneidade tuneril e ao longo dos tempos, originando o cenário actual, onde o Certame competitivo ocupa a maioria dos recursos, disponibilidades e tempo. Se foi graças ao certame competitivo que a tuna nacional marcou pontos no que toca à qualidade da interpretação musical e vocal, deve-se reforçar claramente a ideia de que, no sentido oposto, a espontaneidade perdeu-se quase por completo, com claro prejuízo para alguns factores que geneticamente caracterizam a tuna e distinguem de um simples agrupamento de estudantes que toca cordofones.


O certame competitivo, em suma,  se teve o condão de potenciar a tuna nacional quanto à sua qualidade interpretativa, melhorando significativamente a sua qualidade musical, tal ocorreu à custa da perca de alguma génese pré-histórica - oriunda do ciclo das Bigornias - e seus traços mais românticos, como a Serenata, por exemplo. Já o aspecto migrante da tuna manteve-se com os certames a ocorrerem um pouco por todo o território nacional, compreendidos entre dois períodos do calendário anual: Março e Maio e depois Outubro a Dezembro.

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