A Aventura da Maturidade




No pretérito dia 1 de Março a Infantuna Cidade de Viseu inaugurou a sua Sede Social, uma antiga escola recuperada onde a mesma associação cultural desenvolverá, agora com renovada convicção e condições, toda a sua actividade, acarinhada que foi e é pelas forças vivas da sua região e cidade, como se comprovou inequivocamente na mesma inauguração.






Olhemos agora para o tecido social tuneril nacional e verificamos duas realidades curiosas: A 1ª prende-se com a interdependência das tunas face às suas Universidade/Faculdades/Institutos, que são castradoras per si da evolução natural associativa da própria tuna, "habituadas" que foram desde o "boom" a "encostarem-se" a estruturas estranhas à função tuneril por excelência, o que por um lado se explica nessa época e por outro foi condicionadora da própria evolução associativa, impedindo essas sinergias criadas de voarem para fora da zona de conforto que as Associações de Estudantes ou Reitorias proporcionaram. A 2ª prende-se com a passagem de muitas delas para a esfera associativa - o ultimo Censvs Tvnae prova isso - ao longo da ultima década contudo sem terem com isso - porque processo lento e evolutivo iniciado a jusante - passado para o patamar de independência que pressupõe essa condição de autonomia associativa, mais para mais em tempos como estes, onde tal é muito mais difícil de efectivar que outrora nos anos 90, p.ex.

Ponderadas estas circunstâncias, uma Tuna seja ela qual seja, inaugurar em pleno ano 2014, no actual contexto político-social, onde a aposta na cultura é inexistente ponto parágrafo, é obviamente um sinal de firmeza, de solidez, de reconhecimento, de prestigio, de afirmação da tuna em questão desde logo e, depois, da própria Tuna Estudantil em geral que não pode nem deve passar ao lado nos tempos estranhos em que vivemos. A idade respeitável da Infantuna não é, por si só, explicação para tal logro - e olhando para muitas tunas estudantis tão ou mais antigas que a citada, que hoje continuam encostadas à sala então cedida pela Universidade, não se vislumbrando nestes tempos que tal venha a mudar. Mais ainda, sendo a Infantuna Cidade de Viseu uma tuna não associada formalmente a qualquer instituição de Ensino Superior, constata-se com evidente força de razão o alcance de tal feito agora atingido.

Poderão alguns indicar razões de vária ordem - local, desde logo - para explicar tal feito; contudo, os mais atentos sabem que não basta tal razão, mais havendo a subsidiar: Uma procura constante de contacto com a sociedade civil, uma manifesta representatividade genérica - e não residual, uma postura supra "capelinhas" estudantis, uma relação alimentada ao longo de anos com as forças vivas da sua região e cidade e uma actividade cultural diversificada que abarcou espectáculos intra e extra muros que não se entrincheirou nos certames de tunas indo muito além deles, recusando jogos de espelhos e catalisando, assim, a vertente associativa genética a que se propôs na sua fundação. O que a coloca logo e à partida na rota do sucesso, crescimento e grandeza, como hoje se constata de forma efectiva - por oposição clara a uma noção de satelização da tuna estudantil face à sua Universidade, Faculdade ou Instituto, obviamente confortável e, por isso mesmo, castradora da evolução associativa a que qualquer tuna estudantil se deve predispor. Pior, os laivos destas ultimas de alguma independência, hoje, resumem-se à realização do certame (ou nem isso) e pouco mais, estando as mesmas, concluí-se, paradas anacrónicamente no tempo, num dilema interno (quando percepcionado) que assenta no binómio "autonomia" versus "dependência no apoio"; se por um lado reclamam essa autonomização, logo a seguir caem na dependência pedindo apoios à casa mãe e sucedâneos, que apoiam nos dias de hoje se tal lhes convir na procura de interesses, por vezes, comezinhos e pontuais dos próprios - e não numa perspectiva global de promoção da própria instituição como ocorria nos anos 90, p.ex, onde a tuna foi usada para publicidade ao então emergente mercado liberalizado de Ensino Superior que despontava. Exceptuando casos pontuais e raros, hoje esses apoios são medidos ao milímetro e quando ocorrem têm outras motivações internas que não são conhecidas genericamente - mas que um olhar mais atento casuísticamente descodifica. Já vi quem de um momento para o outro tivesse patrocinado um certame de tunas opíparo do nada, quando antes não o fez e depois desse deixou de o fazer: Ora, nada acontece por acaso.



A verdade, porém, reside na consistência da atitude e propósitos. Hoje, verifica-se de forma inequívoca, que o caminho faz-se caminhando. Quando na direcção certa, sem subsidio-dependências que mais não são que foguetes pontuais nos dias que correm, assente num claro e forte pressuposto associativo independente, o resultado demora mas surge. Foi precisamente a lição que a Infantuna -e outras poucas trilham esse caminho, muito poucas - nos legou nesta que foi bem mais que uma mera inauguração de um espaço social e cultural que irá potenciar futuramente a própria Infantuna e mais que isso, dignificar assim a Tuna estudantil no geral. Tudo isto sem caloiros arregimentados, sem kits e sem praxe mas com muita determinação, saber fazer e Estar, saber semear para colher, com um rumo definido mais metro menos metro e ao longo das ultimas décadas. Está por isso a Infantuna de parabéns não só pela sua nova aquisição mas igualmente pela lição cabal e exemplo de resiliência que nos deixa, a todos, comunidade tuneril, como sendo cada vez mais o caminho a seguir para a garantia da existência futura e respeitabilidade social do fenómeno tuneril português de carácter estudantil, provando que sair debaixo da saía da mãe não só é possível como muito mais producente, provando que sair da maniqueísta "prachisse" resumida a uma mera existência como tropa de elite avançada em palco de uma qualquer Universidade/Faculdade/Instituto para mera fruição de uma anacrónica e cada vez mais despropositada "guerra" com "os outros" que não existe numa manifestação cultural e musical seja ela qual seja, é possível. Mais, é o caminho certo de futuro da tuna estudantil.


Quem fica para trás é quem está lá atrás, vive como vivia lá atrás, acomoda-se como se acomodava lá atrás, fazendo tudo igual ao que faziam lá atrás; Por isso nunca sairão, esses, de lá atrás. Vivem lá e em alguns casos, gostam. Ao ver este exemplo deveriam ponderar, tranquilamente, no que é o caminho de Futuro, porque ele está à vista. Custa, demora, é certo. Mas sabe muito melhor. Não nego alguma inveja saudável ao ver a Infantuna - e outras poucas - com a sua sede, o seu espaço. Motiva. E isso é sempre positivo. É daquelas coisas que nos obriga a continuar, que nos faz querer mais e melhor para nós. Chama-se normalmente a tal Progresso, andar para a frente. Foi esse passo que a Infantuna deu. E ao mesmo tempo, nos legou o trilho a percorrer. É aproveitar a dica - e sacar do bloco de notas......


Post Scriptum: Poucas há que trilham estes passos. São as poucas que do nada fizeram quase tudo...

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