Já tinha abordado este tema, aqui, há 16 anos.
Para melhor percepção, deixo o mesmo de então, revisto agora. "Naturalmente", e no caso em apreço, quase nada existe de diferente...
Nos tempos do "boom" foi algo notório, essa procura de pedigree pelo Bilhete de Identidade, consequência do surgimento em catadupa e sequencial de Tunas atrás de Tunas.
A paginas tantas, já havia quem se arrogasse de uma tradição de dois anos e pico e comparando com a vizinha do lado, nada 3 dias depois, o que não deixa de ser caricato por anedótico. Por outro lado, muitas vezes a actividade de facto enquanto Tuna era anterior à data que a mesma Tuna refere como sendo a do seu nascimento porque - naturalmente - nessa época, a preocupação não era documentar mas sim viver a Tuna, simplesmente; ora, a dada altura, já algumas estavam em plena actividade e nem se lembravam da sua data correcta de fundação.
Logo, apressaram-se a definir uma, por força de um momento mais especial entretanto ocorrido - 1ª saída fora de portas, actuação no dia da Universidade, etc. Ou seja, constatei que, em alguns casos, umas apontavam datas posteriores à sua real actividade, à falta de saber-se a certa. Noutros casos, constatei o oposto, ou seja, a procura de uma data anterior à que, de facto, marca de forma clara o seu início enquanto Tuna. O tal martelado Pedigree...
Se, no 1º caso, se percebe pela tremenda rapidez dos dias e noites daqueles tempos, onde tudo era particular e densamente vivido, a ponto de até se perceber que a data de fundação fora algures ano passado, já no 2º caso se constata uma outra atitude, a de retroactivar a data de fundação, procurando quiçá nas figuras rupestres de Foz Côa, um ícone que de forma cabal, provasse que a sua Tuna datava de tão vetusta era. Coisa muito espanhola, curiosamente - e que "bate certo" com a lenga-lenga fantasiosa e fantasiada então importada e que ainda hoje tem resquícios.
Mas vejamos: Que leva, então, uma Tuna a retroactivar a sua real data fundacional?
Deparei-me com várias situações distintas aqui; uns fazem-no, porque esquecendo-se ou não conseguindo precisar, têm uma vaga ideia, optando por retroactivar a data à conversa de café tida algures no passado, onde um iluminado perguntou "e se fizessemos uma Tuna?" e siga.
Já outros retroactivam essa data fundacional com claro interesse subreptício, ou seja, procurar ser "mais antiga" do que a Tuna X ou Y em concreto ou, mais universalmente, procurando pré-justificar uma antiguidade que não detinham e/ou detêm.
Outros casos há em que, começando com uma formação mista, a mesma se desdobra logo no ano seguinte e resulta em duas Tunas, a feminina e a masculina, sendo que aqui, ao invés de, correctamente, marcarem a data de fundação como sendo a data em que surge cada uma das duas, não senhor, contam a data de fundação de uma tuna mista que....não existe.
Há de tudo, como na farmácia. O caricato, aqui, é o que leva uma Tuna a procurar reescrever a sua própria história, pois se retroactiva a sua data de fundação será, porventura, por alguma razão; ora, tendo as Tunas nacionais grosso modo 30 anos, não me parece que alguém consiga esgravatar no baú das memórias os "ficheiros secretos" da sua Tuna que, afinal, tem mais 10 anos em cima, porque 10 anos antes da data da sua fundação houve um primo do 1º Magister que então, no bar da Universidade, perguntou aos seus colegas de curso "E se formássemos uma cena musical assim toda gira?".
Não é assunto grave, importante, digamos. Mas não deixa de ser "curioso" que se consiga perceber que, mesmo com poucos anos, ainda tenha havido quem tivesse feito a reescrita da sua própria história, a metro, com motivações que oscilam entre o desprendimento no documentar e um claro oportunismo com laivos de pretensa superioridade face ao vizinho do lado.
Fica a questão fulcral: Quando nasce de facto uma Tuna?
Quando ela se apresenta como tal, a fazer o que uma Tuna faz, com regularidade suficiente para daí se aferir que estamos perante uma Tuna.
Quando é que isso ocorre de facto? Bom, num estirador ou num tampo de mesa de café ou no Instagram não será, concerteza.

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