Quinta-feira, Fevereiro 17, 2011

A Aventura da Contabilidade Tuneril.....

Disse, noutro espaço cibernaútico, em 10 de Janeiro de 2006....


De facto, até neste aspecto Portugal vive "acima das suas possibilidades" e as Tunas e seu número mais não é que outro sinal disso mesmo, agora no plano meramente académico/tunante. Uma simples constatação dos números faz-nos aferir - entre outras coisas - conclusões deveras interessantes e, pelo cruzamento de várias informações disponíveis, perceber e apreender determinadas coisas que nos induzem a várias conclusões e ou constatações:

- Portugal é o país do mundo com mais Tunas - 284 - logo seguido de Espanha com 256. Espanha é 6 vezes maior que Portugal.

- O Porto é a cidade do mundo na "pole position" com mais Tunas Académicas e Universitárias, incluíndo femininas e mistas na contagem - 77 - logo seguida de Lisboa - 58 - e depois Madrid - 32 - seguida do Distrito Federal do México com 28, Valência com 24, Coimbra 21, Sevilha com 16 e Castelo Branco com 15. Em Portugal os números tendem a crescer, no entanto, a inactividade de algumas das tunas contabilizadas começa a tornar-se efectiva (tal ocorre também em Espanha e são igualmente contabilizadas aqui).

Vamos convir o evidente; há um manifesto exagero, que não é de hoje e sim consequência da "explosão" quer do fenómeno de Praxe e depois, o Tunante, bem como a crescente implementação do Ensino Superior a que se assistiu nos finais dos anos 80, inícios de 90 do Século passado (XX).

Hoje em dia e após muitas mais anos, é de convir que estamos a falar de números e em alguns casos, os mesmos não correspondem, hoje, à realidade no terreno. Começa a ser visível cá (como em outras paragens) a cada vez maior dificuldade em desenvolver actividade tunante de facto. Por outro lado, começa a ser claro que cada vez mais há menos gente disponivel nomeadamente homens, face ao crescente incremento das mulheres no fenómeno, o que explica em parte os números acima demostrados relativamente ao Porto e Lisboa, por exemplo. Curioso de observar os números relativos a Castelo Branco, prova de uma descentralização em Portugal que há muito que ocorre em Espanha, entre outras informações que se poderão reter na análise sociogeográfica das tunas em Portugal, sua distribuição em função de várias premissas, etc etc etc.

Parece que sempre houve tunas a mais em Portugal, não é de hoje a questão, embora cada uma ocupe o espaço que bem lhe aprouver, certamente que sim. Parece que hoje, na segunda metade da 1ª década do Século XXI, as coisas tenderão a modificar-se, assumindo outros contornos em função da cada vez menor atractividade da Tuna para os Homens e da cada vez maior atractividade da tuna face às Mulheres, originando muitas Tunas Académicas/Universitárias com pouca actividade de facto e muitas Tunas Femininas com alguma ou normal actividade.


Nota: Não me parece que tenha mudado muita coisa neste capítulo, de lá para cá....bom, excepto que já não utilizo o termo "tunante" mas antes e sim o termo mais correcto: "tuneril"...

Segunda-feira, Fevereiro 14, 2011

A Aventura do "mal amado" Pasacalles....

Bem sei não ser uma das manifestações predilectas do tuno português. Muito provavelmente nunca o terá sido, mormente ser uma manifestação por excelência tuneril estudantil no caso dos nossos vizinhos espanhoís, reminiscência directa dos Carnavais - e comparsas carnavalescas onde as estudiantinas e tunas desfilavam então, muitas vezes só mesmo nessa ocasião.

Certo será que se trata de uma tradição genéticamente tuneril, a par da serenata, da beneficiência e do carácter migratório e boémio da tuna. Como certo será, por tal, claro e inequívoco que o desfile ou pasacalles ou arruada ou callejoneada (use-se o termo que se quiser usar, embora prefire o clássico pasacalles) em Portugal praticamente só surge e na tuna nacional após o "boom" dos anos 80/90 do Século XX; antes disso, há relatos históricos por cá, em afamados carnavais, de estudiantinas ou tunas espanholas, a desfilarem em plena via publica, como p.ex. no Carnaval do Porto organizado pelo Clube Fenianos, em finais do Séc.XIX e inícios do de XX, onde constam registos documentados da participação nos desfiles e a concurso da Estudiantina de Salamanca e Córdoba, p.ex. Em 1958 diz-nos o Jornal espanhol "La Vanguardia" que a Tuna Barcelonesa (referindo-se à Tuna Universitária de Barcelona) desfilou, aquando da sua visita à cidade do Porto, pelas ruas da Invicta. E mais relatos documentados existem dessa dinâmica: tunas ou estudiantinas espanholas a desfilarem nas nossas cidades. Já das nossas - poucas que existiam - poucos ou nenhuns relatos existem como prática habitual das nossas tunas. A raíz histórica do pasacalles está, pois -e mais uma vez - no lado tradicional espanhol tuneril; ou seja, é mais uma importação que fizemos, grosso modo, das tradições tuneris espanholas.

Ora, resulta claro duas consequências do acima dito: a 1ª prende-se com a naturalidade com que o pasacalles é encarado pela tuna espanhola e ao longo dos tempos; a tuna espanhola - ao contrário da nossa - vive na, da e para a rua, para a calle; logo, explica-se a facilidade tremenda, para lá da naturalidade, com que fazem o dito cujo desfile, o dito cujo pasacalles. Ainda hoje assim o é, o que, em competição, mostram claramente o acima dito.
A 2ª consequência prende-se com a inversa proporcionalidade e quase anti-naturalidade (?) com que a tuna portuguesa se apresenta aquando do desfile, arruada ou pasacalles; não é a tuna nacional da rua, não vive na mesma nem para a mesma, mormente aquando do "boom" este cenário ter sido mais premente e até efectivo. No entanto, o certame competitivo destruíu o pouco que havia de calle na tuna portuguesa, como hoje se constata. Logo, em competição, a tuna nacional "perde" com espantosa facilidade para a congénere espanhola, na ordem inversa do que se passa em palco, praticamente.

Assim, seria extremamente pertinente, hoje em dia, que os certames investissem de facto no desfile ou pasacalles, numa lógica mais elevada, responsável e organizada - de nada serve ter um pasacalles que percorre ruas desertas de gente, p.ex. ou feito em locais no mínimo caricatos por desadequados à missão final do mesmo; fazer por fazer mais valerá não fazer, ponto. Ou seja, os certames deveriam, até para credibilizar o próprio evento, usar o pasacalles como publicidade directa ao mesmo, levando assim a tuna às pessoas, à rua, às gentes que porventura assim, ficarão mais sensiveis e próximas ao fenómeno - para lá da recriação de um hábito tradicional em si mesmo - quando inserido em eventos: chamariz para público, levando assim a tuna às pessoas e não esperando que as pessoas se aproximem da tuna apenas no teatro. Ao fim e ao cabo, o pasacalles é a democratização da tuna, a partilha da cultura tuneril em todo o seu esplendor, a abertura da tuna à sociedade.

A Festivalitis Aguda aqui tem um papel, mais uma vez, pernicioso e altamente paradoxal: a tuna portuguesa alheia-se quase por completo do pasacalles, praticamente não lhe liga nenhuma, não se prepara previamente para, é-lhe igual ao litro mesmo com prémio respectivo e tudo; Tunas há que, pasme-se, mandam os seus caloiros fazer o dito cujo, ficando as restantes "patentes" a fazer outra coisa qualquer; quase que se assume que, havendo uma qualquer tuna espanhola presente, está o mesmo entregue, portanto, vai daí, nem vale a pena pensar no caso. A Tuna espanhola, por oposição, dá-lhe a mesmíssima importância seja num certame cá, lá ou na República do Kiribati. Sintomático: dá-lhe muita importância, porque sempre lhe deu e não por razão alguma em específico ou de circunstância. Já se começam a ver por cá regulamentos de certames que desclassificam as tunas para os prémios cimeiros quando as mesmas se escusam a desfilar (e muitas vezes também existem questões que se prendem com patrocinadores do evento, que são parte do sustento para que as organizações possam proporcionar mais conforto às tunas convidadas).

O Pasacalles, concluí-se então, deveria ser mais valorizado por cá, quando ele consta pelo menos do programa de actos do certame. A fazer-se que se faça bem feito, direi eu. Mas por parte de todos os intervenientes, sejam eles portugueses, espanhoís ou holandeses. Devem ser bem elaborados, em locais que proporcionem festa e alegria para que vê o desfile mas também para quem o dá. Deve ser o pasacalles a 1ª amostra da qualidade pretensa do que se vai passar mais tarde e não o "frete" porque tem de ser, porque o vereador da cultura pediu ou porque o patrocinador quer ver a sua rua movimentada e assim, potenciar o seu negócio. O pasacalles deve ser a cara do certame. Mas também mostra a cara - e não só... - dos que nele participam. Como? Pela forma como o (não) fazem.....

Terça-feira, Fevereiro 08, 2011

A Aventura do "Menage-a-trois"...

Denoto com particular desagrado - e alguma mágoa até - um facto incontornável : Uma vez mais, tive razão à posteriorí, o que não me serve de consolo sequer: às tantas, tinha de ser mesmo assim para que, hoje, se percebesse a real dimensão do que estamos aqui a tratar.

É e desde há uns anos a esta parte, uma "guerra" que tenho vindo a "travar", dentro da maior cordialidade e respeito por todos os intervenientes na mesma, devo realçar. Conclúo que, hoje, o estandarte das razões que alegava - e alego - oscila cada vez mais alto e não propriamente por força do vento mas antes de mãos, várias mãos - onde se incluem tunas também, refiro - que estão, paulatinamente, a cavar um fosso: 1º entre a Praxe e as tunas e depois - e o que considero infinitamente mais grave até - entre tunas.

É uma regra de 3 simples, resumindo, herdada do "boom": Praxe, Tunas e as suas casas "mãe". Enquanto funcionou, num triangulo das Bermudas sempre recordado com saudosismo (que não saudade...) e que, de certa forma - vamos convir - catapultou a tuna no seio universitário como mais uma manifestação da sua vivência, quer praxista, quer institucional. Como diria o outro, "porreiro, pá!". Neste triangulo, todos saíam a ganhar, com particular enfâse para a tuna, deve-se notar hoje com propriedade: A tuna era a "Guarda Pretoriana" da Praxe e da sua Universidade/Faculdade/Instituto. Todos a vangloriavam, todos berravam por ela nos certames "paroquiais" e internacionais, a Praxe respectiva orgulhava-se dos seus Heroís de Ultramar Tuneril que partindo pelas setes partidas do mundo "conquistavam" fama, glória e notoriedade para as suas Universidades/Faculdades/Institutos. Os Reitores, pró-reitores e demais Doutores dos Conselhos Directivos olhavam, então, para a tuna com a mesma candura que os padrinhos olham para os afilhados em dia de baptismo. Em suma, uma "América" de boa vontade, compreensão mútua e interesse tripartido, sim, que a tuna lá ia tendo apoios para festivais em versão mega, para gravar CD´s, para digressões ao Brasil "representando a sua Universidade", claro está e afins similares e/ou sucedâneos. Um Maná tipo IURD, abençoado por todas as partes envolvidas. Aleluia!

Todo este cenário criou a - falsa - sensação - de diluimento da Tuna quer na Praxe quer na instituição que a acolhia, não se percebendo muito bem quando começava uma coisa e terminava a outra. Lá se foram gerindo e auto-gerindo, pois o tempo das vacas gordas aconselhava à prudência com abstinência de afrontamento directo entre as partes. Afinal, se todos "ganhavam", para quê arranjar confusão? O "menage-a-trois" atrás discorrido era mais do que perfeito. Até ao dia em que o ciúme o desfez, porque o 3º participante continuou a "curtir" sozinho, não precisando do par que restou para atingir o orgasmo. Vicissitudes tuneris, que diabo, que "culpa" tem a tuna de se bastar sozinha, quer perante um mendigo, quer perante o mais faustoso dos Reis?

Os tempos correram como correram; a Universidade ganhou "juízo" e deixou-se de "menages" para poder tratar de outras coisas supostamente, para eles, mais sérias. Sobrou então um par, a tuna e a Praxe. Cientes ambos que nunca se deram nota de que a relação que tinham que só era possivel a três, em "menage". Passou a ser uma coisa mais "mainstream"; ora agora "beijo" eu, ora agora "beijas" tu, tu e mais eu. Ás tantas, o casal percebeu que a relação já não era a mesma, mais a tuna, porque a Praxe, sumariamente, à tuna pouco deu desde então, desde que o trio se desfez. Algo parecido com o que aconteceu ao FCP desde que o Alenitchev, Deco e Derlei deixaram de jogar juntos.

Não foi por desdem da tuna à Praxe, de todo; foi por manifesta desnecessidade da tuna face à Praxe; afinal, enchiam-se Coliseus, fazia-se o que bem se entendia, tinha-se organização interna própria, bastava-se a si mesma, com mais ou menos recursos. A Praxe, entretanto, começou a negociar à grande com "tubarões" que viam no Estudante em sentido lato um rico negócio, como o são as Queimas actuais e quejandos. Foi a escolha da praxe, na qual as tunas nada riscaram, sequer, muito pelo oposto até. Opção, portanto, da Praxe e só da Praxe. A Tuna, essa, seguiu o seu caminho, não obstante, sempre mesclado com a Praxe. Mas...quando se misturava com esta? Quando interessava à Tuna, à Praxe ou a ambas? A resposta a esta questão é óbvia: No palco da Queima tunas nem vê-las, antes os Silence 4, esses grandes estudantes e Praxistas de 1ª água, como todos sabemos.

Daí ao divórcio foi um ápice. Acontece que a tuna divorcia-se por desinteresse objectivo e não por afrontamento, ficando da Praxe "apenas" com o seu lado mais romântico, boémio e em estado mais puro. Dentro de si mesma; não precisa tuna alguma que a Praxe intervenha todo o santo dia, a tuna ela mesma trata - como tratou sempre - disso mesmo. Quando a Praxe percebeu que a tuna se desinteressou dela, que se bastava sozinha, que tinha 5.000 pessoas a aplaudi-la ao fim de 3 minutos e meio de música, o divórcio passou a ser litigioso passo a passo: Uma picardia aqui, uma regulação de poder paternal acolá, uma acção de execução acolí e assim por diante. Hoje, chegamos ao estado em que chegamos, onde aqui e acolá vemos factos, perfeitamente delimitados mas factos, de total imiscuir da Praxe na vida da tuna, na vida interna da tuna, na tuna estudantil enquanto tal. Pode dar tribunal e TVI à porta do mesmo.

O perigo actual não está em alguém querer arrogar-se dono da Torre dos Clérigos, de todo, cada tolo com a sua mania e nem vale a pena dar tempo de antena. O real problema aqui é só um: A divisão entre tunas que pode potenciar, a prazo, esta situação. Se tunas há que pura e simplesmente se riem de tudo isto e siga a vidinha, que aqui ninguém mete o bedelho, outras há que, pressionadas, ameaçadas ou aliciadas por esta ou aquela promessa, podem cair na suprema tentação de voltar a "curtir" com a Praxe mas pelas razões mais ignobeis - e não pelas mais puras, como tinha sido antes e ainda bem. Aqui, não culpo a Praxe, culpo as tunas que se prestam a esses papeís sem se aperceberem de que ao fazê-lo, é quase como aquele manfio que se vira prá vizinha e diz-lhe " é só mais esta vez, anda lá, filha, senão eu conto a cena ao bairro todo...." e anda "nisto" anos a fio.

Por respeito à Tuna em sentido lato mas essencialmente por respeito à Praxe, em sentido também lato, convençamo-nos definitivamente de uma coisa: esta "relação" só funciona por livre e expontânea vontade de ambos os intervenientes, caso oposto, dá granel. Friso nesta ocasião - e ao contrário do que dissemos anos a fio, assumo - a Tuna enquanto instituição NÃO nasce dentro das Universidades nem dentro da Praxe; estas ultimas é que a "convidaram" para um "menage-a-trois" e a Tuna então, alinhou. Daqui em diante, a relação é e só pode ser de cortezia, namoro mutuo, de romance, de boa vizinhança, respeitando-se mutuamente. Tudo o que não for nesta base vai dar confusão. E diz a História que a Tuna sobrevive a golpes de estado, monarquias, republicas, democracias, ditaduras e afins. Não me parece que, havendo hostilidade, a Tuna desapareça. Diz a História precisamente o oposto.


Apenas um alerta final: que algumas tunas - e dada a sua relação histórica de afinidade completa com a Praxe - não caíam na tentação suprema de ceder ao 1º prato de lentilhas que se lhes coloca à frente e muito menos que ceda a pressões venham de onde vierem para deixarem de ser o que são; reinventem-se, pois, se for caso. Salvaguardadas estão todas aquelas que, pela sua constituição genética, nada têm a explicar, ceder ou aceder para lá da sua própria vontade. E é aqui que - como tenho vindo a alertar desde há alguns anos a esta parte - que a tuna-instituição no modelo associativo ganha outra relevância.

Ao que julgo saber, más novas virão aí. Espero que não, sinceramente. Na certeza de que, se vierem, a Tuna vai sobreviver. Os outros é que já não sei, francamente, se, no final, sairão em branco virginal. Peço, pois, tranquilidade, ponderação e acima de tudo, inteligência. A todos. E que as tunas, sejam elas quais forem, não embarquem em aventuras desmesuradamente estereis.

Abraços!